
PARIS, 29 Nov (AFP) - Um quarto de século se passou desde a detecção de uma nova doença em 1981, nos Estados Unidos: a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida ou simplesmente Aids.
Mas desde os anos 20 e 30 do século passado o mundo se confrontava com os primeiros sinais de um vírus símio que saltava a barreira das espécies, passando a afetar os humanos.
Cronologia de eventos importantes na história da epidemia de Aids:
- Décadas de 1920 ou 1930s (especulação): o vírus da imunodeficiência símia (SIV), que destrói as células do sistema imunológico destes animais, salta a barreira das espécies para os humanos, depois que um caçador na África Oeste-central é mordido por um animal infectado ou manuseia carne infectada.
- 1978: homossexuais dos Estados Unidos e da Suécia começam a apresentar os primeiros sinais de uma doença desconhecida, que mais tarde seria chamada de Aids.
- 1981: em 5 de junho, o Centro de Controle de Doenças CDC (Centers for Disease Control) de Atlanta (sul dos Estados Unidos) revela, em seu boletim semanal, o diagnóstico em cinco homossexuais de uma forma rara de pneumonia que normalmente afeta pacientes imunodeprimidos, e que dois deles morreram deste mal.
Em julho, o CDC anuncia a detecção de sarcoma de Kaposi, um câncer raro que normalmente afeta idosos, em 26 homossexuais (dos quais oito morreram) e dez novos casos de pneumonia, o que alerta as autoridades americanas para o aparecimento de uma nova doença. Retrospectivamente, outros casos seriam registrados em 1959 e 1978.
- 1982: (Julho) a nova doença é batizada com o nome de Aids, sigla em inglês para Síndrome da Imunodeficiência Adquirida.
(Dezembro) Um bebê de 20 meses morre de uma infecção relacionada com a Aids depois de uma transfusão de sangue, dando o primeiro indício de que a doença poderia ser transmitida por outras vias, além das relações homossexuais.
- 1983: (Maio) Cientistas do Instituto Pasteur, na França, chefiados por Luc Montagnier, isolam o vírus que invade os leucócitos, provocando a Aids. Eles denominam o agente causador da doença como LAV (siga em inglês para Lympadenopathy-associated virus). Os primeiros sinais, encontrados em homens africanos na Europa, mostram que heterossexuais também podem ser infectados, gerando uma ansiedade generalizada.
(Novembro) A Organização Mundial da Saúde (OMS) estabelece uma vigilância global. O número conhecido de casos de Aids (só nos Estados Unidos) é de 3.064 até o fim do ano.
São registrados os primeiros casos de Aids no Brasil. Em São Paulo é implantado o primeiro programa oficial de controle da doença, ao qual se segue o programa no estado do Rio de Janeiro e o Programa de Aids na Divisão de Dermatologia Sanitária.
- 1984: o cientista americano Robert Gallo anuncia ter isolado o vírus, o qual batizou de HTLV-III, mas fica claro que o agente é o mesmo do LAV, identificado um ano antes, na França.
- 1985: os primeiros testes comerciais com o vírus da Aids ajudam a livrar os bancos de sangue contaminado.
Celebra-se a primeira Conferência Internacional sobre Aids, em Atlanta.
O ator de Hollywood Rock Hudson é a primeira personalidade a morrer de Aids.
Os casos da doença agora aparecem em todas as regiões do mundo. É identificado o primeiro caso na China.
- 1986: o agente causador da Aids passa a ser oficialmente denominado vírus da imunodeficiência humana (HIV).
No Brasil é criado o Programa Nacional de DST (doenças sexualmente transmissíveis) e Aids.
- 1987: a primeira droga anti-HIV, a zidovudina (AZT), é aprovada depois que testes demonstraram sua eficácia na redução, mas não na cura, da progressão do vírus. O AZT pertence a uma classe de medicamentos denominada inibidor da transcriptase reversa, que impede a replicação do vírus.
O presidente da Zâmbia, Kenneth Kaunda, anuncia que seu filho morreu de Aids, um marco na campanha contra o estigma que ronda a doença na África.
O presidente americano, Ronald Reagan, que foi acusado de ter negligenciado a Aids, faz um discurso no qual descreve a doença como "inimigo público nº1".
- 1988: a Organização Mundial da Saúde institui o 1º de dezembro como o Dia Internacional de Combate à Aids.
A data torna-se um marco para a mobilização, a conscientização e a prevenção da doença no mundo.
- 1990: morre Ryan White, um jovem americano hemofílico infectado com HIV, cuja proibição de freqüentar a escola por ser soropositivo deu início a uma campanha de combate ao preconceito contra a Aids.
- 1991: morre Freddy Mercury, vocalista do grupo de rock Queen.
O astro do basquete americano Earvin "Magic" Johnson anuncia que tem HIV.
Dez milhões de pessoas no mundo são soropositivas ou estão doentes de Aids, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
São indiciados na França os médicos Michel Garretta e Jean Pierre Allain, responsáveis por transfusões sangüíneas em um caso relativo a sangue contaminado.
- 1992: o astro do tênis Arthur Ashe anuncia ter sido infectado numa transfusão de sangue nove anos antes.
- 1993: sinais de preocupação surgem diante da resistência ao AZT apresentada entre usuários de longo prazo da droga.
Morre de Aids o bailarino russo Rudolf Nureyev.
Casos da doença começam a surgir na África do Sul.
- 1994: estudos demonstram que o AZT é capaz de impedir a transmissão do HIV de mãe para filho.
- 1995: duas novas classes de medicamentos anti-HIV, que também combatem a replicação, são aprovadas: os inibidores de protease e os inibidores não-nucleosídeos de transcriptase reversa. Usados em combinação, eles podem reduzir a carga viral abaixo de níveis detectáveis, um feito que desperta o otimismo de que uma possível cura tenha sido encontrada.
Introdução de testes que medem a carga viral no sangue.
- 1996: as Nações Unidas criam o Programa Conjunto da ONU sobre HIV/Aids (UNAids). Introdução do teste de carga viral, um padrão de medida da progressão da doença. A epidemia começa a piorar no Leste europeu, na antiga União Soviética, na Índia e na China.
- 1997: o número de mortes causadas por Aids cai nos Estados Unidos pela primeira vez desde 1981.
Surgem evidências de efeitos colaterais tóxicos e de resistência aos novos medicamentos anti-retrovirais.
- 1998: naufragam as esperanças de que o coquetel de anti-retrovirais fosse uma cura. Surgem evidências de "reservatórios" de HIV onde o vírus hiberna e retorna quando a terapia é interrompida.
- 1999: A nevirapina se torna a droga preferencial para prevenir a transmissão de mãe para filho.
- 2000: o sul da África se torna o epicentro do que hoje é uma pandemia global. Em Botsuana, quase um em quatro adultos e 40% das mulheres grávidas têm HIV. O presidente sul-africano, Thabo Mbeki, é atacado em todo o mundo por questionar que a Aids seja causada pelo HIV.
Companhias farmacêuticas começam a baratear os preços dos medicamentos anti-retrovirais para países pobres.
- 2001: a companhia farmacêutica indiana Cipla promete fabricar genéricos mais baratos de drogas anti-Aids, pressionando as multinacionais a cortar os preços mais adiante.
O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, pede a criação de um "fundo de guerra" para a Aids de 7 a 10 bilhões de dólares por ano, comparados com o um bilhão de dólares que eram gastos. A doença se torna a causa principal de morte na África subsaariana.
Durante a rodada de negociações de Doha, no Catar, o Brasil defende a proposta vitoriosa de priorizar as necessidades da população aos direitos de patentes, dando apoio político e legal ao país em suas negociações, levando a significativas reduções de preço sem que a quebra de patentes tenha sido efetivada até o momento.
- 2002: o Fundo Global de Combate à Aids, Tuberculose e Malária começa a fazer suas primeiras destinações de recursos.
Começa a ser comercializado o Fuzeon, o primeiro de uma nova classe de medicamentos anti-HIV denominados inibidores de fusão, que visam evitar que o vírus se acople às células imunológicas, ao invés de se replicar dentro delas após invadi-las, demonstra eficácia entre pessoas com resistência aos tratamentos existentes.
- 2003: o presidente americano, George Bush, anuncia planos para destinar gastar 15 bilhões de dólares em cinco anos no combate à Aids na África e no Caribe.
Fracassa o primeiro teste com uma vacina contra o HIV.
O novo diretor-geral da OMS, Lee Jong-Wook, coloca a Aids como sua prioridade máxima e pede que três milhões de pobres tenham acesso aos medicamentos anti-retrovirais até o fim de 2005.
O premier chinês, Wen Jiabao, se torna o primeiro chefe de Estado do país a apertar a mão publicamente de um paciente com Aids.
Cai o preço dos medicamentos anti-retrovirais, com a ajuda de um acordo com a Organização Mundial do Comércio (OMC) para permitir aos países pobres e vulneráveis importarem medicamentos genéricos.
- 2004: a África do Sul finalmente começa a distribuir anti-retrovirais gratuitos nos hospitais.
A cúpula do G8 convoca uma iniciativa denominada Global HIV Vaccine Enterprise, que implementará a coordenação e o intercâmbio de informações entre os pesquisadores de vacinas do mundo.
- 2005: grande aumento do acesso a anti-retrovirais nos países pobres, embora o plano da OMS "Three by Five" (três milhões de pessoas até 2005) só tenha permitido tratar 1,3 milhão de pessoas infectadas.
Voltam as preocupações com recursos para a Aids, depois que os doadores dão prioridades às catástrofes naturais, como a tsunami que atingiu o oceano Índico no fim de 2004.
Em seu estudo anual, a UNAids e a OMS afirmam que a Aids matou 3,1 milhões de pessoas em 2005 e que cinco milhões de pessoas foram infectadas pelo vírus HIV no ano. O total de pessoas vivendo com HIV/Aids atinge o recorde de 40,3 milhões.
- 2006: (Fevereiro) a China emite as primeiras diretrizes para lidar com a epidemia de Aids, incluindo a exigência dos governos locais de oferecer medicamentos e exames gratuitos.
(Junho) Membros da ONU estabelecem como meta o acesso universal aos cuidados com HIV/Aids até 2010.
Em 1º de dezembro, Dia Mundial de Combate à Aids, haverá no mundo entre 34,1 e 47,1 milhões de pessoas vivendo com HIV ou Aids e o número de mortes causadas pela doença será de mais de 25 milhões de pessoas.
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