
CIDADE DO CABO, 9 Nov (AFP) - A falta de acesso à água limpa mata cerca de dois milhões de crianças por ano e atravanca as perspectivas de crescimento econômico nos países mais pobres do mundo, revelou o Relatório anual da ONU sobre Desenvolvimento Humano, publicado nesta quinta-feira, no qual 23 países africanos apareceram nos últimos lugares da lista.
Mais de 2,6 milhões de pessoas ainda não têm acesso ao saneamento adequado e a água suja mata mais que a Aids e conflitos, segundo o relatório, publicado este ano na África do Sul.
Segundo o principal autor do documento, Kevin Watkins, 1,8 bilhão de crianças morrem anualmente de diarréia provocada por água suja,
"Isto é cinco vezes o número de crianças que morrem de HIV/Aids", disse Watkins a jornalistas.
"O que está claro é que água limpa e saneamento são a vacina mais importante para implementar a saúde pública e o crescimento econômico", acrescentou.
O relatório destacou a situação da saúde pública em favelas da África, inclusive Kibera, em Nairóbi, onde o saneamento rudimentar leva muitos moradores a fazer uso do que chamou de "toaletes voadores".
"As pessoas defecam em bolsas plásticas e as jogam nas ruas porque não têm outra opção", disse Watkins.
A falta d'água e de saneamento mantêm as crianças fora da escola, tanto devido a doenças vinculadas com a água suja ou porque são forçadas a caminhar longas distâncias para ajudar a coletar água para suas famílias.
Além dos custos humanos e das perdas de produtividade, o crescimento econômico é contido ao ponto de superar a ajuda internacional.
Em um resumo do relatório, o diretor do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD), Kermal Dervis, disse que "o mau uso de políticas de gestão da água que exacerbam a escassez" está na raiz da crise, antes da falta do recurso.
"O acesso à água para a vida é uma necessidade humana básica e um direito humano fundamental", afirmou.
"Os problemas de saúde associados com déficits de água e saneamento minam a produtividade e o crescimento econômico, reforçando as profundas desigualdades que caracterizam os padrões atuais da globalização e aprisionam lares vulneráveis em ciclos de pobreza", ressaltou.
O documento também alertou que o acesso à água provavelmente se tornará mais problemática como resultado do aquecimento global.
"Na África subsaariana, a combinação de temperaturas em elevação e o declínio das chuvas levam a episódios prolongados de seca e à limitação da água de superfície", destacou.
"A mudança climática não é uma ameaça futura, mas uma realidade à qual os países e as pessoas precisam se adaptar. Os lares de milhões de pessoas ficarão mais precários enquanto os padrões de chuva se tornarem mais variáveis e, em alguns casos, a disponibilidade de água decair", continuou.
O relatório também demonstrou que o desenvolvimento na África subsaariana se estagnou sem qualquer sinal de melhora, sobretudo devido aos efeitos do HIVA/Aids que diminuíram 20 anos da expectativa de vida, atingindo as mulheres ainda mais fortemente.
"Devido à feminilização da epidemia de HIVA/Aids em Botsuana, Lesoto, África do Sul e Suazilândia, a expectativa de vida das mulheres será dois anos menor que a dos homens", acrescentou.
Nesta região, o desafio humano mais fundamental é sobreviver e o relatório destacou que apenas três países da África subsaariana alcançarão as metas de desenvolvimento do milênio de baixar as taxas de mortalidade infantil em dois terços até 2015.
"Nascer no lado errado da rua na cidade global representa um grande risco em termos de prospectos de sobrevivência", destacou o documento.
Vinte países africanos apareceram com a menor taxa do índice de desenvolvimento humano, na lista encabeçada por Noruega, Islândia e Austrália.
"A onda ascendente da prosperidade global levantou alguns barcos mais rapidamente que outros e alguns estão afundando rapidamente", destacou o documento.
Desta forma, "a renda combinada das 500 pessoas mais ricas do mundo agora excede àquela das 416 milhões mais pobres".
O índice de desenvolvimento humano mede o bem-estar humano, focando-se em aspectos como alfabetização, educação e expectativa de vida.
Os moradores da próspera Noruega, que está no topo da lista, são 40 vezes mais ricos do que os de Níger, o último colocado no relatório do PNUD, e vivem duas vezes mais que eles.
Segundo o documento, a África subsaariana atingiu a menor expectativa de vida em 30 anos: enquanto os noruegueses podem esperar viver quase 80 anos, a média de vida em países como Quênia, Ruanda e Moçambique é de 46 anos.
"As pessoas são a real riqueza das nações", lembrou Kevin Watkins.
"Esta verdade simples algumas vezes é esquecida. A medida definitiva para o progresso é a qualidade de vida das pessoas".
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