
JOHANNESBURGO, 23 out (AFP) - A adoção de um bebê do Malauí por parte da estrela Madonna despertou fortes críticas, mas o crescente número de órfãos africanos devido à Aids e às guerras civis mostra a urgência de que famílias adequadas sejam encontradas para que se dê um lar a elas.
O número de órfãos no continente mais pobre do planeta, que atualmente já chega aos 43 milhões, parece destinado a continuar crescendo.
As Nações Unidas estimam que pelo menos 18 milhões de crianças africanas terão perdido um pai antes do fim da década. A isto se acrescenta outra desgraça: antes os órfãos eram recolhidos pelos familiares, mas a pandemia da Aids dizima também os parentes capazes de criá-los.
Sarah Crowe, porta-voz do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), considera que a adoção das crianças africanas por estrangeiros "não é algo ruim", mas deveria ser o último recurso.
"A melhor maneira de diminuir as adoções internacionais é incentivar a participação das comunidades e desenvolver o espírito 'ubuntu' (solidariedade, em zulu)", declarou à AFP.
"Deveríamos apoiar e dar uma oportunidade às famílias de criar essas crianças. A adoção internacional deveria ser o último recurso", frisa.
Marika Bloem, assistente social especializada em adoções do Ministério sul-africano de Desenvolvimento Social, disse que o mais importante é dar às crianças uma certa estabilidade, mas acredita que é necessário que mais africanos desejem adotar, para evitar o choque cultural dos órfãos.
"Há um grave problema com as crianças abandonadas e órfãs, que precisam de pais estáveis", declarou, informando que seu número cresce "e é necessário que as pessoas as adotem, em particular os negros, cuja cultura não os estimula a adotar".
Na África do Sul, 300 crianças foram adotadas por estrangeiros em 2005, informou, indicando que a maioria dos pais adotivos vem de Holanda e Suécia.
Gail Johnson, uma branca, ela mesma adotada, e que por sua vez adotou dois pequenos negros em Johannesburgo, destaca que a diferença de origens não deveria ser um obstáculo e que o essencial é a capacidade de dar amor.
"Por que, quando se trata de uma celebridade, isto desperta tantas paixões?", se pergunta ela, que também se tornou célebre quando seu filho adotivo, Nkosi, que morreu depois, pronunciou um discurso emocionado, na Conferência Internacional sobre a Aids de 2001, contra a marginalização dos doentes.
"Se alguém pode ajudar uma pobre criança a ter uma família, porque tanta história? Se alguém cruza com um órfão com fome e ama esse menino, por que impedir que o adote se respeita o procedimento adequado?", acrescenta Gail Johnson, que fundou um lar para as mães com portadoras do HIV e seus filhos.
A porta-voz da Unicef ressalta finalmente que o mais importante é que os pais adotivos levem a sério suas responsabilidades. "Trata-se de fazer o melhor em favor das crianças. De dar a elas um lar afetuoso que favoreça seu desenvolvimento", concluiu Sarah Crowe.
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