
TORONTO, Canadá, 16 Ago (AFP) - A proliferação do vírus causador da Aids (HIV) nas prisões é subestimada, denunciaram em Toronto (Canadá) encarregados da luta contra esta doença, que pediram uma reação das autoridades públicas do mundo inteiro.
"Depois de mais de 20 anos de pandemia, a resposta nas prisões ainda está pendente", denunciou o pesquisador zambiano Alick Nyirenda, durante a 16ª Conferência Internacional sobre Aids, que se celebra nesta cidade canadense.
As prisões se tornaram verdadeiras "incubadoras" do HIV e da Aids, devido a relações sexuais sem proteção, a tatuagens feitas em condições de higiene duvidosas e ao consumo de drogas injetáveis com seringas usadas, acrescentou.
A superpopulação carcerária, a sobrecarga que compromete o atendimento médico e o tabu da homossexualidade em alguns países favoreceram a propagação do vírus em centros de reclusão.
Annie De Groot, especialista em doenças infecciosas em prisões da universidade americana Brown, disse que a situação dos prisioneiros é muito poucas vezes mencionada nos fóruns sobre Aids, apesar de merecerem os mesmos tratamentos que os outros doentes.
O diretor da Fundação Irlandesa para as Reformas Penais, Rick Ones, considerou por sua vez que a prevenção da Aids nas prisões deveria ser considerada um direito humano. Os Estados têm a obrigação de proteger a saúde das populações carcerárias, disse.
Nos países onde o homossexualismo é considerado crime, os debates sobre as relações sexuais protegidas são difíceis, lamentou Nyirenda.
"É preciso lidar com estas questões difíceis", acrescentou.
Nas prisões canadenses há 1.729 casos de Aids conhecidos, segundo um estudo de fevereiro de 2006, mas presume-se que o número seja muito menor, pois muitos presos temem informar sua condição de soropositivos, explicou Connor McCollum, da Rede de Ação de Apoio a Presos com HIV/Aids.
O Canadá fornece preservativos e lubrificantes para sua população carcerária desde 1992, mas em um ambiente de violência em que a Aids ainda é considerada uma doença de homossexuais, muitos presos evitam pedir ajuda para não serem apontados como gays.
A Ucrânia se tornou o epicentro da epidemia de Aids na Europa, devido especialmente ao consumo de drogas com seringas infectadas.
Um estudo apresentado na conferência de Toronto encontrou taxas de Aids de 16% a 91,5% em sete prisões ucranianas.
Segundo o Programa das Nações Unidas contra o HIV/Aids (OnuAids), calcula-se em 600.000 o número de usuários de drogas injetáveis na ex-República Soviética, a maioria jovens.
O primeiro programa de distribuição de seringas descartáveis foi implementado na Suíça em 1992. Atualmente, 50 programas deste tipo funcionam em oito países.
Nestes não foram registrados novos casos de HIV e se constatou uma redução nas overdoses de heroína.
No entanto, Morag McDonald, editora do jornal International Prisoner Health, lamentou a falta de iniciativas.
"Falta vontade política para implementar programas de distribuição de seringas gratuitas e oferecer serviços sanitários", garantiu.
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