
TORONTO, Canadá, 15 ago (AFP) - Líderes religiosos pediram em Toronto, onde acontece a 16ª conferência internacional sobre a Aids, que não se utilize termos bíblicos, como "açoite", para fazer referências à doença, e o uso dos locais de culto para combater "uma epidemia que não respeita credos".
"Um açoite é um termo bíblico associado a um castigo de Deus. O simples uso dessa palavra enfatiza a visão de que Deus está castigando a Humanidade", explicou o reverendo Jape Heath, secretário-geral da rede africana de líderes religiosos infectados pelo HIV, paralelamente à conferência sobre a doença.
Outros foram além, e afirmaram que os líderes religiosos devem pedir perdão pela falta de ação envolvendo a doença, que já matou 25 milhões de pessoas em todo o mundo.
"Devemos nos arrepender de nossa cumplicidade em estigmatizar as pessoas que vivem com o HIV/Aids, e em marginalizar as pessoas com o HIV/Aids, principalmente mulheres e crianças", disse o bispo Mark Hanson, líder da Igreja Evangélica Luterana dos Estados Unidos. "Temos que concordar que nosso silêncio nos tornou cúmplices, que nossas ações e palavras vergonhosas (...) a maneira como criamos argumentos morais (...) e nossas estruturas patriarcais nos tornaram cúmplices", acrescentou.
Especificamente, colocar a moralidade acima do pragmatismo na educação sexual e na prevenção da Aids tornou-se problemático, indicou Hanson. Isso levou, por exemplo, à condenação do uso de preservativos, citou.
A Igreja Católica Apostólica Romana e os líderes muçulmanos, que alguns membros da comunidade contra a Aids consideram os principais culpados por essas práticas, não participaram da discussão. "Embora não se possa dizer que esses grupos tenham passado totalmente por cima da luta contra a Aids, suas ações causaram mais danos do que benefícios", estimou Jape Heath.
Muitos pregaram a abstinência, cuidaram dos doentes e consolaram pessoas que enterraram seus mortos. "Sinceramente, como uma pessoa que vive com o HIV, não quero que minha comunidade de fé me diga: 'Vergonha, deixe que eu te ajude a morrer'", comentou o reverendo. "Quando vemos as mensagens de prevenção do ponto de vista moral, aumentamos o estigma que fará com que, para mais pessoas, torne-se difícil o acesso aos cuidados."
Mark Hanson, por sua vez, observou uma maior cooperação entre os setores religiosos para pôr fim à fome e pobreza, mas que o tema da Aids não é discutido.
Igrejas, mesquitas, sinagogas e templos, como bases da comunidade, também têm uma grande oportunidade de se tornar centrais para a luta contra a Aids, apontou o budista Phramaha Boonchuay Doojai, diretor do Chiang Mai Buddhist College, na Tailândia.
Segundo Bishnu Ghimire, diretora da Active Service Society no Nepal, depois que os líderes religiosos foram educados sobre a Aids, suavizaram sua retórica.
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