
TORONTO, 14 Ago (AFP) - As emoções se sucederam nas cerimônias inaugurais da Conferência Internacional sobre Aids, iniciada neste domingo, em Toronto (Canadá), marcada pelo luto em razão das 25 milhões de vidas perdidas no último quarto de século, pela revolta contra determinadas posturas políticas e por apelos para erradicar a doença até 2031.
Em uma curiosa mistura de ativismo, campanha política, luto pela ausência de amigos e o glamour das celebridades, teve início a maior conferência dedicada à doença, que se estenderá até sexta-feira.
Um sonho quase impossível de que a Aids, que há 25 anos se espalha pelo mundo, se torne coisa do passado algum dia, se refletiu no fictício anúncio de TV exibido aos participantes da conferência.
O curta, projetando uma realidade desejada em 2031, mostrou um homem abastecendo seu carro sem rodas, que flutuava no ar, com a água e as calotas polares restauradas e outro retirando um adesivo com a inscrição "ala de câncer" da porta de um hospital.
Lápides das vítimas da Aids eram retratadas como relíquias, como em um antigo cemitério de guerra, e um guarda de fronteira israelense lendo um jornal, enquanto judeus e palestinos passavam desapercebidos por seu posto.
"Não deixe que o 50º aniversário da Aids aconteça", dizia o filme em sua mensagem final.
A ira política que marcou alguns momentos da luta contra a Aids também esteve presente. Seu principal alvo foi o primeiro-ministro do Canadá, o conservador Stephen Harper, que recusou um convite para o evento, que promete ser duro com os políticos.
"Sr. Harper, o papel de primeiro ministro inclui a responsabilidade para demonstrar liderança na cena mundial", disse o co-presidente da conferência, Mark Wainberg, ao saudar os delegados.
"Sua ausência envia uma mensagem de que o senhor não vê o HIV/Aids como uma prioridade crítica e claramente todos nós aqui esta noite discordamos do senhor", criticou, ovacionado pelos presentes.
Ao contrário, Bill e Melinda Gates foram bem recebidos antes de seu discurso, ao entrar no amplo estádio Rogers Centre, casa do time de beisebol Toronto Blue Jays.
Mas até mesmo Gates recebeu algumas vaias, ao dar crédito ao presidente americano, George Bush, por fornecer medicamentos baratos e financiamento como parte do plano de ajuda global de Washington contra a Aids da ordem de US$ 15 bilhões.
Alguns chegaram a pedir mais dinheiro ao magnata da informática e homem mais rico do mundo, cuja fundação recentemente anunciou uma doação de US$ 500 milhões para o Fundo Global de combate à Aids, Tuberculose e Malária.
O galã de Hollywood Richard Gere, parecendo um professor em férias com sua barba branca, lembrou o surgimento da Aids, mais de 25 anos atrás, e das célebres palavras de Elizabeth Taylor, que numa ocasião declarou: "Nós podemos vencê-la".
Gere falou ainda do ex-presidente americano, Ronald Reagan, que a princípio se recusou a reconhecer a tragédia sanitária e social relativa à Aids e depois se "desculpou profundamente", enviando uma mensagem para que Harper, que recusou o convite à conferência, faça o mesmo algum dia.
"A Aids tem 25 anos. Eu tenho 25 anos", disse a cantora americana Alicia Keys, um fato que provoca nela "raiva e tristeza", mas que também a motivou a trabalhar para ajudar a erradicar a doença.
Mais tarde, em um show em meio a um espetáculo de luzes, DJs, bailarinos e cantores como Amanda Marshall, Chantal Kreviazuk e o grupo de rock canadense Barenaked Ladies, bem como percussionistas do Blue Man Group, atraíram 30 mil pessoas, que transformaram o estádio em um mar de gente.
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