
ROMA, 21 abr (AFP) - O cardeal italiano Carlo Maria Martini, um dos mais progressistas da Igreja Católica, admitiu em uma entrevista que o uso do preservativo e o aborto em alguns casos são aceitáveis como um "mal menor", o que provocou muitas reações entre os católicos.
Martini, de 79 anos, intelectual jesuíta, durante muitos anos arcebispo de Milão e atualmente aposentado em Jerusalém, tem sido o líder da ala mais progressista da Igreja e o eterno adversário do cardeal conservador Joseph Ratzinger, atual Papa Bento XVI.
Em uma entrevista ao pesquisador Ignazio Marino, publicada pela revista Espresso, o religioso aceita que em "casos limites" se pode utilizar o preservativo, por exemplo contra a Aids.
"Certamente o uso do preservativo pode constituir, em alguns casos, um mal menor", afirmou, em uma referência à presença da Aids em um dos integrantes de um casal.
"O afetado tem a obrigação de proteger o companheiro e este deve ter o direito de se proteger", comentou o religioso.
"O problema é saber se as autoridades religiosas devem fazer propaganda a favor de um meio de defesa assim, como se os outros meios de defesa, inclusive a abstinência, passassem ao segundo lugar, correndo o risco de promover uma atitude irresponsável". Sobre o aborto, Martini considera que as leis adotadas em muitos países ocidentais a seu favor têm sido de "alguma maneira positivas", já que contribuíram para diminuir os abortos clandestinos.
"É difícil que um Estado moderno não intervenha para impedir uma situação selvagem e arbitrária", disse o cardeal.
"Não quero dizer que se concedeu uma 'licença para matar', mas sim que o Estado intervém para diminuir os abortos, suas causas e exige precauções", lembrou.
O cardeal italiano também acredita que o uso de embriões congelados para implantação, ao invés da destruição, também pode ser um "mal menor".
"Onde se apresenta um conflito de valores, me parece eticamente mais significativo propor um tipo de solução que permita a expansão de uma vida, ao invés de deixá-la morrer", comentou.
Para Martini, a Igreja deve formar as consciências e ajudar a discernir entre o bem e o mal em todas as ocasiões, porque "proibir e dizer 'não' na realidade não serve para nada".
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