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Mal de Chagas, doença ligada à miséria, afeta 2,8 milhões de argentinos

Agence France-Presse - Setembro 12, 2005


BUENOS AIRES, 12 set (AFP) - O mal de Chagas, doença chamada de "Aids dos pobres" e que não tem vacina ou cura, afeta 2,8 milhões de pessoas na Argentina, um país avaliado pela ONU como o de maior índice de desenvolvimento humano (IDH) da América Latina, informou uma fonte sanitária à AFP.

"É vergonhoso porque a solução é fazer com que as pessoas não vivam em cabanas", sintetizou o infectologista Horacio Mingrone, em alusão à necessidade de erradicar as residências precárias.

Nos tetos de palha e nas paredes sem reboco das casas mais pobres vive o barbeiro (Triatoma infestans) ou "vinchuca", como é chamado na Argentina, inseto que pica humanos e animais para se alimentar de seu sangue, e que transmite o Tripanosoma cruzi, protozoário parasita causador da doença.

A pobreza extrema cria a situação ideal para a persistência de uma doença relegada pela comunidade científica, com apenas dois medicamentos disponíveis para ser tratada e poucos especialistas.

"É uma doença não midiática, que não gera renda e, além disso, é derivada de parasitas, que são como os primos pobres dos (agentes) infecciosos, pois os ricos são os vírus", ironizou Mingrone.

O mal de Chagas recebe menor atenção da comunidade científica que a Aids, que afeta na Argentina 130 mil pessoas.

As vias de contágio são a picada do inseto, a transfusão de sangue contaminado e a transmissão de mãe para filho.

Na América do Sul há 18 milhões de pessoas com o mal de Chagas, segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

"Vamos para uma fase de emergência", advertiu à AFP o médico David Gorla, que dirige o Centro de Pesquisa Científica e Transferência Tecnológica da província de La Rioja (noroeste).

Gorla deu como exemplo a província de Santiago del Estero, onde "para cada caso agudo são calculados outros 80 não detectados".

A doença voltou a castigar neste ano áreas onde havia sido erradicada e, na maioria dos casos, o doente não apresenta sintomas durante a fase aguda, a única em que os tratamentos funcionam.

Ao se tornar crônica, as seqüelas causam incapacidade e podem levar à cegueira ou à morte por cardiopatias severas, distensão do esôfago ou do cólon.

"Cinqüenta por cento da população indígena do noroeste está infectada", disse Gorla.

O médico denunciou a falta de inseticidas contra o barbeiro e medicamentos que são levados às áreas mais afetadas em veículos caindo aos pedaços.

"Não há interesse por parte da indústria farmacêutica para o desenvolvimento de drogas porque não é lucrativo", denunciou.

As províncias com maior número de casos são Santiago del Estero, La Rioja, Formosa e Chaco, as mais pobres da Argentina.

"É inadmissível o número de infectados que existe no país", disse, por sua vez, Sergio Sosa Estani, chefe do Serviço de Epidemiologia do Centro Nacional de Diagnóstico e Pesquisa de Endemoepidemias.

Sosa Estani destacou que o grupo mais exposto é o das crianças, visto que a doença se desenvolve geralmente nos primeiros 10 anos de vida.

A doença é causada pelo Trypanosoma cruzi, descoberto pelo cientista brasileiro Carlos Chagas, cujas pesquisas foram complementadas pelo médico argentino Salvador Mazza, razão pela qual a doença é conhecida na Argentina como mal de Chagas-Mazza.

Apesar de ser endêmica desde o século XIX, a Argentina lançou em 1994 um plano nacional para a erradicação das chamadas 'escuelas rancho', com telhado de palha e paredes de adobe, um verdadeiro berçário de barbeiros.

Desde março passado, a ONG Médicos Sem Fronteiras patrocina a divulgação do documentário "Chagas: un mal escondido", que tenta gerar uma conscientização sobre esta doença radicada em Brasil, Argentina e Paraguai.

"É a Aids dos pobres porque aqueles que sofrem dela não recebem atenção da mídia, não têm poder político e é muito fácil ignorá-los", disse à AFP o diretor do filme, o cineasta argentino Ricardo Preve.

"As pessoas ignoram os doentes e os médicos que se dedicam ao combate do mal de Chagas são muito parecidos a seus pacientes, pois são os mais pobres e os que menos se queixam", denunciou.

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