KAMPALA, 29 mar (AFP) - O Human Rights Watch (HRW), grupo de defesa dos direitos humanos com sede em Nova York, afirmou que uma mudança sustentada pelo governo dos Estados Unidos no programa de combate à Aids em Uganda ameaça comprometer os esforços, antes bem sucedidos, no combate à doença.
Segundo o grupo, o apelo de Washington para que educadores ugandenses dêem ênfase à abstinência sexual e não no uso de preservativos como forma de evitar a transmissão de HIV nega aos jovens do país leste-africano o acesso a uma informação vital para sua saúde.
"Os programas baseados unicamente em abstinência expõem os jovens ugandenses ao risco do HIV", alertou Jonathan Cohen, co-autor do relatório de 80 páginas do grupo, intitulado "The Less They Know, the Better: Abstinence-Only HIV/AIDS Programs in Uganda" (numa tradução livre, 'Quanto Menos eles Souberem Melhor: programas de HIV/Aids exclusivos sobre abstinência em Uganda').
Cohen instou Uganda a voltar ao bem sucedido programa "ABC" - sigla em inglês para Abstinência, Fidelidade e Preservativo - e condenou os esforços apoiados pelo governo do presidente americano, George W. Bush, para eliminar o "C" - o preservativo - da equação.
A fórmula é apontada como a responsável por ajudar o país a reduzir a prevalência do HIV de 30% nos anos 1990 para cerca de 6% hoje, mas o Human Rights Watch afirma que sob o esquema "AB", apoiado por Washington, os ganhos podem se perder.
O relatório citou o esboço da "estratégia AB", publicado em novembro pela Comissão de Aids de Uganda, que alertou professores e profissionais de saúde para não fornecer aos jovens informações sobre o uso de preservativos e abstinência, pois seria confuso.
Segundo o Human Rights Watch, professores ugandenses afirmaram que "foram instruídos pelos fornecedores americanos a não discutir sobre preservativos nas escolas, porque a nova política é 'abstinência somente'".
"Uganda está gradualmente retirando os preservativos de sua estratégia anti-HIV/Aids e as conseqüências podem ser fatais", destacou outro co-autor do estudo.
"Retardar a vida sexual é certamente uma escolha saudável para os jovens ugandenses, mas a juventude tem o direito de saber que há outras formas eficazes de evitar o HIV", destacou.
Além do governo americano, o Human Rights Watch culpou o presidente Yoweri Museveni e sua família, especialmente sua esposa, Janet, por dar ênfase entusiasticamente à mensagem que prega a abstinência como única forma de evitar a contaminação pelo vírus da Aids.
Segundo a organização, a primeira-dama convocou publicamente um "censo de virgens" nacional em apoio à sua agenda, que segundo se afirma é apoiada por uma organização conservadora com sede nos Estados Unidos, chamada Children's Aids Fund.
Autoridades ugandenses descreveram o relatório como uma compilação de alegações infundadas e afirmaram que não houve mudanças na política de prevenção de HIV/Aids no país.
"A política do governo continua sendo ABC, que é a abordagem mais ampla para combater a disseminação de HIV/Aids", disse à AFP o alto funcionário do ministério da Saúde, doutor Alex Opio.
"A política continua baseada na abstinência para aqueles que ainda não são casados, na fidelidade para os casados e no uso de preservativos para aqueles que praticam sexo com pessoas que não são seus parceiros regulares", afirmou.
Ele negou que o governo ugandense esteja desencorajando o uso de preservativos, afirmando que o país tem sido um dos maiores importadores do produto nos últimos anos.
"Dos 120 milhões de preservativos usados no país a cada ano, 80 milhões são importados pelo governo", disse.
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