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Aids avança lentamente e em silêncio no Japão

Agence France-Presse - Setembro 3, 2004
Niels Planel

TÓQUIO, 3 set (AFP) - O ginecologista japonês Tsuneo Akaeda, 60 anos, faz um alerta sobre o avanço silencioso da Aids no Japão e sobre a falta de discussão a respeito do assunto no país.

"Os japoneses pensam que a Aids é um fantasma, não têm consciência de nada, não se sentem diretamente envolvidos", acusa Tsuneo Akaeda, 60 anos, ginecologista inquieto com a evolução da epidemia no Japão.

"A situação vai se tornar mais cedo ou mais tarde explosiva", prevê. Desde 1999, Akaeda recebeu mais de dois mil jovens em cinco anos em um trabalho educacional em um bar no centro de Roppongi, agitado bairro de Tóquio, de onde lança um grito de alerta.

"Em 2003, o governo registrou 336 novos casos de Aids. Em geral, isto significa que há cerca de dez vezes mais casos de infecções do HIV, mas apenas 640 foram registrados. Então, onde estão as pessoas infectadas?", questionou o ginecologista.

"De fato, são casos verificados, mas é provável que haja muito mais", admite Masanori Suzuki, chefe do Departamento de Aids do Ministério da Saúde.

"Há sem dúvida três ou quatro vezes mais casos de Aids que indicam as estatísticas", avalia, por sua vez, Wataru Sugiura, diretor do laboratório de pesquisa terapêutica sobre a doença do Instituto Nacional de Doenças Infecciosas.

"Os japoneses não fazem o teste. Para os jovens, os exames gratuitos são oferecidos em horários não compatíveis com suas atividades", explica Akaeda.

O "delivery health" ("saúde a domicílio: prostituição de adolescentes e jovens mulheres) é um novo fator de risco na propagação de doenças infecciosas no Japão, ao qual se soma o turismo sexual", afirma o ginecologista.

Vários japoneses não usam preservativos, multiplicando os riscos de transmissão, que segundo o especialista.

No Japão, a camisinha é mais associada à contracepção do que à prevenção de doenças, confirma Suzuki, que acrescenta que "as vendas de preservativos estão diminuindo".

"Os jovens pensam que é mais legal ter relações sem preservativo", afirma Akaeda. "É possível ser soropositivo sem desenvolver a doença durante décadas, mas os jovens que eu vejo fumam e bebem bastante, eles têm uma saúde mais frágil, portanto, eu acredito que veremos muitos casos daqui a cinco ou seis anos", explica.

"O governo tem um orçamento fixo para a luta contra a Aids, mas se contenta em editar relatórios. Não há vontade política, não é uma iniciativa séria", lamenta o ginecologista.

Ele pede uma educação sexual na escola porque estes jovens "não recebem informação de nenhum lugar. "Os pais têm medo de interessar suas crianças em sexo se falarem sobre o assunto e os professores não podem fazê-lo sem receber reclamações dos pais", afirma.

"Não é mais tabu, mas continua sendo delicado falar sobre isso", confirma o pesquisador Wataru Sugiura.

"É um problema que não estamos empenhados em compreender, inclusive a mídia, nunca vi campanhas na televisão", afirma, convocando o governo a fazer um trabalho de informação.

"O número de novos casos vai aumentar, com certeza, daqui a quatro, cinco anos", prevê Sugiura.

O Ministério da Saúde garante que os centros de atendimento estão abertos mesmo durante os finais de semana e que a intenção é a aumentar a quantidade de exames, principalmente os gratuitos.

"Agora é tarde", avalia Akaeda.

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