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Estados Unidos e Uganda preferem combater a Aids com abstinência

Agence France-Presse - Julho 12, 2004


BANGCOC, 12 jul (AFP) - A XV Conferência Mundial sobre a Aids começou nesta segunda-feira em meio a muitas críticas às polêmicas campanhas de abstinência sexual adotadas pelos governos dos Estados Unidos e de Uganda como principal estratégia de combate à doença.

A campanha do governo americano - "ABC", abstinence, be faithful, condoms when appropriate (abstinência, fidelidade e camisinha quando necessário) -, aplicada a nível doméstico e em países em desenvolvimento, revolta os ativistas.

"Essa campanha parece ser definida mais pela ideologia do que pelas necessidades reais", avalia Mabel van Oranje, diretora do Instituto Open Society da Holanda, privado.

A especialista ressaltou os perigos de estender o programa americano aos países em desenvolvimento, lembrando que em várias partes da África subsaariana mulheres monogâmicas estão sendo infectadas por seus maridos, que têm relações sexuais fora do casamento, e as jovens estão sob forte pressão para fazer sexo.

"Para as mulheres e adolescentes africanas, sua primeira experiência sexual é involuntária", disse. "A abstinência não é uma opção", acrescentou.

A polêmica sobre a estratégia do governo americano de priorizar a campanha de abstinência surge em um momento em que os especialistas afirmam que são necessárias mais verbas para combater a doença no mundo inteiro e os Estados Unidos figuram como principal fonte de recursos para pesquisas e campanhas.

Nesta segunda-feira, um pequeno grupo de manifestantes irrompeu na conferência jogando sangue falso nos pôsteres dos principais líderes mundiais, aos quais acusam de não cumprir com as promessas de destinar 10 bilhões de dólares por ano ao fundo global de combate à doença.

Os pesquisadores já afirmam que a luta para conter o avanço do vírus está sendo boicotada por cortes de verbas para a gigantesca operação de prevenção, tratamento e busca de uma vacina.

"O mundo está em um ponto para lançar uma grande campanha de escala mundial para prevenção e tratamento da Aids. Mas isso vai custar muito caro", afirma Richard Feachem, diretor do Fundo Global para o Combate à Aids, Tuberculose e Malária.

Os Estados Unidos são de longe o maior colaborador no combate à doença. O governo Bush pediu 15 bilhões de dólares para combater a Aids nos próximos cinco anos.

Entretanto, o professor e especialista em aspectos legais da Aids, Brook Baker, da Northeastern University School of Law, disse ao fórum que a contribuição deveria ser o dobro deste valor. A ONU estima que serão necessários 20 bilhões de dólares para combater a doença devido à crescente ameaça de uma epidemia.

A parlamentar democrata Barbara Lee também criticou o enfoque da Casa Branca na abstinência e avaliou que esta política mina os esforços para evitar que a doença se espalhe.

"A única esperança de prevenção do contágio do HIV é usar a camisinha", argumentou Lee.

As Nações Unidas também avisaram que uma falta de políticas e apoio financeiro para o programa de uso da camisinha prejudicam os esforços para evitar o avanço da doença. "Apenas 20% dos atos sexuais de risco tiveram proteção em 2003 nos países de baixa e média renda", afirmou o consultora-chefe em ciência da ONUAids, Catherine Hawkins.

Em contrapartida, o presidente de Uganda, Yoweri Museveni, que implementou uma campanha de combate à Aids priorizando a abstinência no seu país, parecida com a americana, parabenizou o governo Bush por sua opção.

Museveni afirmou, durante a conferência, que a campanha de abstinência sexual foi responsável pela forte queda das taxas de contágio do HIV no seu país. O dirigente garantiu que Uganda tem o índice mais baixo de uso de camisinhas e mesmo assim a presença do vírus da Aids caiu bruscamente devido a uma campanha agressiva do governo pregando a abstinência e fidelidade nas relações.

"A camisinha não é a principal solução para o problema no final", disse Museveni durante a XV Conferência Internacional sobre a Aids. "Nossa abordagem é gradual. Abstinência, fidelidade, e se você não conseguir, use a camisinha", declarou.

Cerca de um milhão de pessoas morreram de Aids em Uganda desde que o primeiro caso foi diagnosticado há 22 anos e outras 1,2 milhão foram infectadas. Entretanto, as taxas de infecção em Uganda, que atingiram 30% na década de 90, caíram para 6%, uma queda que Museveni atribui à campanha de abstinência, que custa 35 milhões de dólares por ano.

"A Aids é um problema principalmente moral, social e econômico", disse na conferência na capital Tailandesa, onde um recorde de 17 mil delegados está reunido. O presidente de Uganda acredita que uma campanha pelo uso da camisinha desviaria a atenção da sociedade do principal problema da Aids.

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