PARIS, 11 jul (AFP) - Há 23 anos os médicos americanos perceberam algo estranho: oito jovens homossexuais de Nova York apresentaram sintomas de um tipo de câncer de pele (o sarcoma de Kaposi) e outros cinco, em Los Angeles, foram diagnosticados com um raro tipo de pneumonia.
Esses foram os primeiros casos conhecidos da ação de um vírus que iria estremecer o mundo: o HIV, que produz a Síndrome de Deficiência Imunológica Adquirida (Aids), que já provocou algo em torno de 26 milhões de mortos. Cerca de 40 milhões convivem com o vírus. E aproximadamente 14 milhões de crianças já ficaram órfãs de pai e/ou mãe.
Os especialistas reunidos em Bangcoc para a 15º Conferência Internacional da Aids, que acontece de 11 a 16 de julho, devem se perguntar: o que deu errado? Como deixamos que a Aids se tornasse uma assassina em massa?
Uma das repostas é que a Aids já existia muito antes de ser descoberta.
O HIV, o vírus da Aids, é primo do Vírus da Imunodeficiência Símia (SIV), que destrói células de imunidade dos macacos e deixa os animais sensíveis a doenças.
Observando a árvore genealógica do HIV e calculando seu grau de mutação, cientistas acreditam que o surgimento do vírus aconteceu no fim da década de 20 e começo da de 30. Alguém teria sido mordido por um chipanzé infectado com o SIV.
O vírus então encontrou um novo hospedeiro ao qual se adaptou: o homem. A partir de então, ele se espalhou pela raça humana através do esperma, sangue ou da membrana mucosa. A evolução dos meios de transporte, especialmente do avião, ajudou a espalhar a Aids mais rapidamente do que qualquer outra doença na história.
"Por volta de 1980, o HIV já tinha chegado aos cinco continentes", disse Jonathan Mann, uma das grandes figuras do combate à Aids, em 1989.
Especialistas na doença afirmam que o vírus proliferou fortemente nos anos 80 graças à homofobia, ao tabu sexual e à falta de fundos para a prevenção.
No início, a Aids era considerada uma "doença de gay". Porém, com o tempo as pessoas se conscientizaram de que os heterossexuais correm os mesmos riscos.
A grande vítima do vírus foi o continente africano. Dois terços das vítimas da Aids vêm da região subsaariana, especialmente na África do Sul e países vizinhos. Nessa região, as campanhas para a prevenção da Aids foram lançadas tardiamente, assim como a distribuição de remédios.
A força do lobby da comunidade gay, a morte prematura de algumas celebridades e o crescente medo entre heterossexuais fizeram da doença um assunto político.
A equipe do francês Luc Montagnier identificou o vírus em 1983, abrindo caminho para testes de anticorpos e para a produção de suprimento de sangue, o que salvou a vida de milhões de pessoas.
Outros bons resultados apareceram em seguida. A primeira droga de combate à doença, o AZT, surgiu em 1987, depois que se descobriu como o vírus se reproduz.
Em 1995, novas drogas, usadas em conjunto com a terapia, permitiram uma maneira de administrar a doença. A biotecnologia, por sua vez, tem sido usada para tentar descobrir maneiras de penetrar no vírus.
Em pouco tempo, a Aids passou de uma "doença de gays" a um perigo universal que ameaça a todos.
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