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Falta de remédios adaptados torna a Aids mais difícil para as crianças

Agence France-Presse - Julho 13, 2004
Annie Hautefeuille

BANGCOC, 13 jul (AFP) - Mais de dois milhões de crianças no mundo vivem com o vírus HIV/Aids, mas o acesso aos anti-retrovirais (ARV) é ainda mais difícil para eles do que para os adultos devido à falta de medicamentos apropriados, advertiram os médicos esta terça-feira na Conferência sobre a Aids de Bangcoc.

As crianças doentes são as grandes esquecidas dos laboratórios farmacêuticos, que não dão importância à produção de medicamentos ou de testes de diagnóstico facilmente utilizáveis pelos menores de idade, declararam vários representantes da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF).

Xaropes muito amargos, pastilhas difíceis de mastigar e de dividir complicam a vida dos jovens pacientes, explicou o doutor David Wilson, médico que coordena o programa da MSF na Tailândia.

"As companhias farmacêuticas não se preocupam em produzir medicamentos de combate à Aids sob posologia e apresentação pediátrica porque as crianças não constituem um mercado atraente", acrescentou.

Cerca de 38 milhões de pessoas estão contaminadas com o vírus da Aids no mundo, sendo que entre 1,9 e 2,5 milhões têm menos de 12 anos, segundo os últimos dados da OnuAids.

A cada ano, 650.000 crianças são infectadas por causa da falta de prevenção adequada na transmissão mãe-filho nos países mais pobres. A doença matou 490.000 menores de 15 anos no ano passado.

"As crianças são ainda mais marginalizadas, vítimas da discriminação", insistiu o doutor Wilson.

Cerca de nove em cada dez crianças soropositivas vivem na África subsaariana. Quase metade delas morre antes de completar dois anos, segundo a MSF.

Testes de diagnóstico não adaptados para os menores de 18 meses, morte dos pais, dificuldades para definir doses adaptadas à idade e peso dos jovens enfermos e para encontrar os médicos capazes de fazê-lo: a lista de "problemas" é longa e obriga as equipes que trabalham nessa área a ter muita criatividade.

"As crianças são duramente afetadas. Dificilmente podem ir (sozinhas) ao hospital", explicou Nozi Ntuli, enfermeira que trabalha para a MSF na África do Sul.

Às vezes, para convencer um garoto que ele é capaz de tomar todos os dias um enorme comprimido de Efavirenz - um ARV - é preciso dar a ele, durante uma semana, tabletes doces do mesmo porte, disse Ntuli, precisando que desta maneira as crianças conseguem seguir o programa da MSF na África do Sul.

Para os adultos existem comprimidos de doses fixa que associam três ARV e facilitaram os tratamentos nos países em desenvolvimento (basta tomar um comprimido duas vezes ao dia), mas não existe nada parecido para as crianças.

O lado financeiro é outro fator de peso. Para um adulto um coquetel de ARV de dose fixa pode custar 200 dólares por ano, mas para uma criança, as soluções orais ou xaropes dos mesmos remédios custam pelo menos 1.300 dólares por ano, mas ainda sem as doses corretas, segundo a MSF.

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