NOVA YORK, 8 jun (AFP) - A morte de Ronald Reagan não deixou de luto a comunidade homossexual americana, que conserva um certo rancor contra o ex-presidente americano pela indiferença ante a epidemia de Aids, que emergiu na década de 80, durante seu governo.
Enquanto prosseguem nos Estados Unidos as homenagens à memória de Reagan, morto no sábado aos 93 anos, a comunidade homossexual se mantém distante. Para ela, o governo Reagan deixou feridas profundas: as vítimas da Aids.
"Não é só que tenha simplesmente ignorado a doença. (...) O que é incrível é que ele e sua administração tenham decidido deliberadamente não fazer nada", disse Mark Milano, especialista em terapia de Aids que desde 1981 vive com o HIV.
Os primeiros indícios da epidemia surgiram no início da presidência de Reagan (1981-1989), quando uma rara forma de câncer começou a se manifestar entre os homossexuais. O termo Aids apareceu em 1982, quando mais de 1.500 americanos foram diagnosticados com a doença.
Mas foi só em 1987 que Ronald Reagan mencionou a palavra em público pela primeira vez, lembram os ativistas. Naquele ano, o número de casos tinha saltado para 60.000, dos quais 30.000 foram fatais.
Para alguns, a falta de recursos federais para combater a doença contribuiu para a sua propagação.
Segundo o médico que o atendia na Casa Branca, entre 1984 e 1985, Ronald Reagan achava que a Aids era "como o sarampo e se curaria sozinha".
Lou Cannon, um dos biógrafos do ex-presidente, escreveu em seu livro que a resposta de Reagan à epidemia foi "vacilante e ineficaz".
Em discurso durante um simpósio nacional sobre Aids, em 2001, C. Everett Koop, que fôra um alto funcionário médico do governo Reagan, revelou que, devido à existência de "políticas diferentes conduzidas no coração de cada ministério", foi privado durante os cinco primeiros anos daquela administração de qualquer discussão sobre Aids.
"Como a contaminação por Aids afetava essencialmente a comunidade gay e quem usava drogas injetáveis, os principais conselheiros do presidente consideraram que os doentes só tinham o que mereciam", continuou Koop.
Vários militantes da causa gay dizem não achar que o ex-presidente fosse homofóbico e consideram que sua atitude foi determinada pelos valores morais e conservadores da "New Right" e da "Moral Majority", que floresceram em seu governo.
"A resposta do governo (Reagan) foi uma conseqüência do domínio da Igreja Evangélica conservadora, que considera os homossexuais pecadores e a Aids, uma merecida punição divina", disse Matt Foreman, diretor-executivo da National Gay and Lesbian Task Force.
"Não acho que Reagan odiasse os homossexuais, mas sei que a política de sua administração sobre a Aids e qualquer coisa relacionada com a causa gay resultou e continua resultando em morte e desesperança", afirmou.
"Não derramei nenhuma lágrima pelo falecimento de Ronald Reagan", escreveu Philip Hitchcock, um escultor gay de Venice, Califórnia, em carta publicada nesta segunda-feira pelo jornal Los Angeles Times.
"Minhas lágrimas foram e são pelas centenas de milhares de americanos soropositivos aos quais o presidente Reagan virou as costas", acrescentou.
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