PUNTA DEL ESTE, Uruguai, 5 dez (AFP) - Os tratamentos das pessoas infectadas pela Aids avançaram de maneira notável na América Latina, mas ainda é preciso fazer muito em matéria de políticas de prevenção que rompam com os tabus culturais, segundo especialistas reunidos no Congresso Mundial da Aids.
"O machismo, aceito tanto pelo homem como pela mulher, e a forte rigidez religiosa tornam muito difícil que as pessoas entendam a necessidade de prevenção na América Latina", afirmou a médica cubana Irene Acevedo à AFP, durante o congresso de Punta del Este, que termina esta sexta-feira.
Durante o congresso foram destacados os importantes avanços registrados em matéria de tratamentos e monitoração das pessoas infectadas na América Latina.
"Um total de 50% das 500.000 pessoas sob tratamento no mundo está na América Latina. E desses 50%, metade está no Brasil, país pioneiro na luta contra a Aids", disse Antonio Gervase, especialista da Organização Mundial da Saúde (OMS).
Um dos motivos para este avanço é a redução dos preços dos medicamentos na América Latina, graças às negociações feitas por vários governos com os laboratórios internacionais ou, inclusive, como no caso de Cuba, devido à produção nacional de genéricos, destacaram os participantes da reunião.
À margem dos progressos, o número de casos continua aumentando na região, onde o HIV/Aids afeta dois milhões de pessoas. Este ano a doença provocou quase 100.000 mortes no continente.
"Ainda há muito por fazer pela educação da população e é preciso instaurar políticas de prevenção efetivas e claras", disse a cientista chilena Maritza Ríos, que acrescentou que "o peso da Igreja é muito forte e tem tanta influência que, em muitos casos, evita que se fale abertamente sobre métodos de prevenção, como o preservativo".
Na segunda-feira passada, a Igreja Católica chilena criticou a alta valorização que se dá ao uso da camisinha nas campanhas de prevenção da Aids, ao afirmar que é certo que sua utilização reduz o risco de contágio em grupos de alto risco, mas não é conveniente incentivar o método para toda a população.
Por outro lado, vários representantes religiosos (muçulmanos, judeus e católicos) presentes no Congresso pediram um combate à discriminação das pessoas com Aids e uma divulgação mais intensa de informações sobre a doença.
Os cientistas ressaltaram o fato de que as pessoas, de maneira geral, não se senten vulneráveis, inclusive muitas das que estão afetadas pelo HIV/Aids, o que torna muito difícil a adoção de medidas adequadas.
"Alguns infectados confiam nos anti-retrovirais porque melhoram sua qualidade de vida diária. Então, começam a deixar de tomar os medicamentos e seu estado piora. Eles sentem que não estão mais em risco e abrem mão da proteção quando mantêm relações sexuais", disse Ríos.
Segundo Gervase, é preciso comemorar o aumento e a melhoria dos tratamentos na América Latina, sem que isso determine uma queda da prevenção. Para isso, os governos devem instaurar programas efetivos e claros.
"É preciso politizar a decisão, para depois despolitizar a execução das medidas", concluiu.
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