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Vaticano-saúde-Aids: Alegações do Vaticano contra uso de preservativos provoca reações no mundo

Agence France-Presse - Outurbo 10, 2003


GENEBRA, 10 out (AFP) - A emissora de TV britânica BBC apresentará neste domingo o especial "Sex and the Holy City" (Sexo e a Cidade Sagrada), em que representantes da Igreja católica pedem a portadores do HIV em todo o mundo que não usem preservativos, alegando que estes não protegem da Aids. Alguns trechos do especial, que será exibido no premiado programa investigativo Panorama, foram divulgados para a imprensa esta sexta-feira.

Segundo pesquisa feita pela BBC para o programa, alguns líderes católicos alegam que o vírus HIV pode passar por pequenos orifícios nos preservativos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) rejeitou imediatamente as alegações da Igreja católica.

"De uma perspectiva científica, qualquer um que alegue que o preservativo masculino não protege da Aids está errado", disse a porta-voz da OMS, Fadela Chaib.

Chaib defendeu estudos feitos pela OMS, segundo os quais os preservativos são 90% eficazes na prevenção do vírus da Aids, atribuindo os 10% restantes ao uso impróprio.

"Se for usado incorretamente, se romper, deslizar ou tiver o prazo de validade vencido, o preservativo masculino não é muito eficaz", explicou a porta-voz.

No Quênia, onde há 2,5 milhões de soropositivos, a AFP falou por telefone com o arcebispo de Nairóbi, Raphael Ndingi Mwana, que em declarações ao programa da BBC atribuiu o rápido crescimento da Aids à disponibilidade de preservativos.

"É verdade", ratificou a mais alta autoridade católica do Quênia.

"Como é que a Aids prevalesce em áreas onde os preservativos estão disponíveis?", argumentou, antes de desligar o telefone abruptamente.

Opinião contrária têm as autoridades sanitárias do país.

"Isto é falso. Está cientificamente provado que os preservativos protegem contra o HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis (DSTs)", disse à AFP, por telefone, o diretor do Programa de Doenças Sexualmente Transmissíveis do Quênia, Kenneth Chebet.

"Nos preocupa que a posição do Vaticano sobre os preservativos possa influenciar a maioria de seus seguidores a não usá-los o que, obviamente, aumentará as chances de contrair o HIV e outras doenças", declarou Chebet.

O diretor dos serviços médicos do Ministério da Saúde queniano, Richard Muga, ele mesmo um médico, defendeu o uso de preservativos, afirmando que eles efetivamente protegem, quando utilizados corretamente.

"Não há dúvidas sobre isto e o governo queniano continuará a estimular fortemente as pessoas sexualmente ativas a utilizá-los", disse Muga.

Em outro país africano fortemente atingido pela pandemia de Aids, o Conselho Sul-africano de Igrejas (SACC, sigla em inglês) condenou o pedido do Vaticano para que doentes de Aids e soropositivos evitem o uso de preservativos.

"Estou abalado e enojado com a Igreja Católica", disse o padre anglicano Joe Mdhlela, porta-voz do SACC, conselho que reúne todas as igrejas representadas na África do Sul, inclusive a católica.

"Existem provas médicas irrefutáveis de que os preservativos podem ajudar a salvar vidas. O HIV/Aids é uma pandemia e, quanto ao SAAC, nossa convicção é a de que é preciso fazer o possível para salvar vidas e limitar a propagação da doença", enfatizou o padre.

"A Igreja Católica deve olhar o verdadeiro mundo de frente. A luta da Igreja está em seus dogmas e em seus ensinamentos e deve tentar se livrar disso", continuou.

Por outro lado, o padre Hyacinth Ennis, conselheiro de moralidade da Conferência de Bispos (católicos) africanos deixou claro que a Igreja católica sul-africana está de acordo com a posição do Vaticano.

"Os bispos consideram que o uso generalizado do preservativo representa uma arma imoral para lutar contra a Aids", sentenciou.

"A posição dos bispos é de que os preservativos contribuem para a dissolução da fibra moral das nações", concluiu.

Segundo a agência da Onu para a Aids (OnuAids), a África subsaariana é a região mais afetada pela pandemia e registra dois terços da população mundial afetada pela doença, ou seja 29,4 milhões de pessoas entre 42 milhões.

No entanto, a Igreja católica mantém a firme oposição a métodos artificiais de contracepção, alegando que estes promovem a promiscuidade.

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