NAIRÓBI, 25 set (AFP) - As atitudes masculinas em relação às mulheres e ao sexo sempre foram conhecidas como uma das maiores causas da pandemia de Aids na África, mas mudar estes hábitos é uma tarefa árdua.
Esta é a opinião de muitos especialistas reunidos na conferência Icasa sobre Aids na capital queniana, onde o típico macho africano foi descrito quase como um risco ambulante de contágio por HIV.
Seu comportamento típico é o de um homem ignorante ou que ridiculariza a prática de sexo seguro, altamente promíscuo e que normalmente força a esposa ou namorada a fazer sexo com ele.
Os maiores grupos de risco são o de trabalhadores viajantes e motoristas de caminhões que estão solitários e longe de casa, com dinheiro no bolso, alcoolizados e tentados a fazer sexo sem proteção com prostitutas.
Estes homens são os portadores silenciosos da morte. Eles levam o vírus HIV para dentro de suas casas, infectam suas esposas e eventualmente deixam seus filhos órfãos.
Mudar estas atitudes de forma a que os homens africanos se tornem mais conscientes e responsáveis é um trabalho enorme, de acordo com os últimos estudos.
"É o ego masculino", foi o veredicto de Cary Alan Johnson, representante no Zimbábue para a Africare, ONG que promove conscientização sobre saúde e Aids.
O programa sul-africano Men as Partners, feito com 139 homens em workshops de três meses, visou encorajá-los a mudar de atitude. Os voluntários saíram do exército, dos escritórios, eram homens desempregados de Soweto, de grupos de igreja, de jovens e prisões. Eles foram entrevistados antes e depois dos workshops.
Antes, 56% deles diziam que lhes cabia decidir quando usar um preservativo em um relacionamento; depois, esse número caiu, ainda que suavemente, para 48%.
Antes do workshop, 56% acreditavam que quando uma mulher dizia não ao sexo "ela realmente não queria dizer aquilo". Depois, este número caiu para 41%.
Antes, 79% acreditavam que era melhor ser homem do que mulher e 66% mantiveram este pensamento três meses depois.
Apesar dos números ainda serem altos, houve algum sucesso: mais homens concordaram que uma mulher pode se recusar a ter sexo sem proteção; menos (de 36% a 18%) pensam que "mulheres que se vestem de forma sensual querem ser estupradas e outros disseram que decidiriam em conjunto com suas parceiras pelo uso de anticoncepcionais.
Como as atitudes dos homens podem sair das trincheiras do machismo?
Uma conclusão clara é que campanhas convencionais de educação sexual, invariavelmente com enfoque no uso de preservativos, podem ser uma perda de tempo e de recursos.
A pressão das parceiras funciona melhor e as maiores esperanças estão na próxima geração de homens, afirmou Damien Wohlfahrt, cuja organização EngenderHealth dirigiu o programa.
"Atingir os rapazes tem sido relativamente fácil. Atingir homens mais velhos é mais difícil", afirmou.
"Homens mais velhos e de origem rural geralmente acham mais fácil discutir questões de maior profundidade em workshops só de homens", explicou.
"Alguns acham difícil conversar na frente das mulheres ou ouvi-las. Nos grupos para homens eles se sentem mais livres para discutir honestamente seus pontos de vista sobre questões relacionadas à sexualidade, ao comportamento sexual e (às diferenças de) gênero", continuou o especialista.
O sucesso da abordagem de um macho típico por outro homem é enfatizada em um estudo feito por Admire Chirowodza, do Programa de Saúde Feminina do Zimbábue.
Ele e seus colegas entrevistaram mais de 1.300 homens em cervejarias de Harare, perguntando a eles sobre seus hábitos sexuais.
Mais da metade disseram ter ajudado seu colega de copo a se manter livre do HIV nos últimos seis meses, encorajando-o a usar preservativos ou evitar fazer sexo de risco.
Passará muito tempo, no entanto, antes que os homens possam falar abertamente sobre sexualidade e diferenças sexuais com as mulheres ou mesmo com seus filhos, disse Johnson.
"A cultura precisa mudar", resumiu.
A conferência Icasa termina no próximo sábado.
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