NAIRÓBI, 24 set (AFP) - Cumprir a meta da ONU de distribuir medicamentos anti-retrovirais a três milhões de pessoas vivendo com Aids até o final de 2005 custará mais de cinco bilhões de dólares, quantia maior que o total gasto em todo o mundo na luta contra a Aids em 2003, informaram autoridades sanitárias das Nações Unidas reunidas esta quarta-feira na Conferência Internacional sobre Aids e Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs) na África (Icasa), em Nairóbi.
A informação foi confirmada pelo diretor-executivo da OnuAids, Peter Piot, cuja agência coordena a campanha mundial, que disse em entrevista coletiva que "tratar três milhões (de pessoas) custará cinco bilhões (de dólares) até 2005".
Piot falou a jornalistas presentes à Icasa, fórum que se realiza a cada dois anos e que trata especificamente dos problemas africanos diante da crise da Aids.
A meta "três em cinco" (três milhões de pessoas atendidas em 2005) foi anunciada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) na segunda-feira, quando a entidade declarou a Aids uma "emergência de saúde mundial".
Segundo Piot, este número se incorpora às estimativas existentes na OnuAids de que o mundo precisará gastar 10,7 bilhões de dólares em países com rendas baixa e média em 2005 para combater a epidemia e 14,9 bilhões de dólares em 2007.
"Não é impossível, mas vai requerer recursos", afirmou.
A esse respeito, Piot disse que o dinheiro extra provavelmente terá que sair de doações individuais, de países ricos e dos próprios países africanos.
"Os governos da África têm que fazer mais. A maior parte deles não têm sérias diretrizes orçamentárias para tratar da Aids e, afinal, trata-se de (um problema de) sobrevivência nacional", continuou.
"Mesmo países pobres têm um orçamento. Todos eles têm um exército, existem prioridades que precisam ser estabelecidas aqui", concluiu.
No entanto, a pesada conta de cinco bilhões de dólares não inclui a criação da infra-estrutura vital - treinamento de pessoal, compra de equipamentos, criação de redes de estocagem e distribuição - necessária para administrar os medicamentos, disse Piot.
Piot disse que especialistas estão trabalhando para dar uma estimativa para a criação desta infra-estrutura, acrescentando que a situação varia de país para país.
Muitos delegados presentes à conferência alertaram que o custo para a manutenção desta infra-estrutura será alto, pois muitos países são vulneráveis ao desvio de recursos, roubo de medicamentos e mal-uso dos medicamentos, que pode aumentar a resistência do vírus perigosamente.
Para o diretor de HIV/Aids da Organização Mundial da Saúde (OMS), o brasileiro Paulo Teixeira, a solução consiste em usar as clínicas e redes existentes, comprometendo os médicos e enfermeiras maciçamente em programas de treinamento e envolvendo a comunidade em todos os níveis.
"Eu estou fortemente convencido de que é possível", disse Teixeira, otimista.
"Estimamos que neste ano serão gastos em todo o mundo 4,7 bilhões de dólares em programas contra a Aids, mas estes são uma mistura de prevenção e tratamento, e é particularmente o componente tratamento que precisa ser implementado", continuou Piot.
"De modo geral, estamos no meio do caminho", resumiu.
O foco da campanha "três em cinco" será a África subsaariana, que registra três quartos dos cerca de 40 milhões de infectados com o vírus HIV ou Aids no mundo.
De acordo com números da ONU, apenas 1% dos africanos que necessitam de drogas anti-retrovirais têm acesso aos medicamentos atualmente, embora a expectativa seja de que esta proporção aumente com a queda dos preços.
Estes medicamentos - coquetéis de três drogas que evitam que o vírus invada as células imunológicas do corpo - surgiram em meados da década de 90 e têm ajudado milhões de pessoas em países ricos a transformar a Aids em uma doença administrável.
Mas, infelizmente, os anti-retrovirais têm se mantido fora do alcance dos doentes de países pobres por causa de seu alto custo.
Esta situação agora mudou, sob uma estratégia de mão-dupla acordada pela indústria farmacêutica, que vende medicamentos mais baratos para os países pobres, enquanto mantêm altas margens de lucro nos países ricos.
Os preços estão fadados a cair no futuro, depois de um acordo da Organização Mundial do Comércio (OMC) que permitirá aos países pobres importarem cópias baratas dos remédios de marca, os chamados genéricos.
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