PARIS, 17 set (AFP) - Especialistas de toda a África se reúnem a partir do próximo domingo em Nairóbi, capital do Quênia, para avaliar a luta de vida e morte travada no continente contra a Aids, caracterizada por uma nova fase na qual dinheiro e medicamentos estão, finalmente, entrando na guerra.
Com sorte, a XIII Conferência Internacional sobre Aids e Doenças Sexualmente Transmissíveis na África, que durará seis dias, poderá marcar o momento em que a guerra começou a ser vencida: quando os participantes de campanhas antiAids não se limitarem apenas a distribuir preservativos, mas também os remédios que tiveram sucesso em conter a pandemia nos países ricos.
"O principal desafio hoje mudou para um programa de implementação", disse em entrevista Michel de Groulard, alto oficial da agência OnuAids.
Dois anos atrás, quando o grande fórum foi realizado pela última vez, o quadro da crise da Aids na África era persistentemente negro: estatísticas sombrias noticiadas na mídia, somadas à crônica falta de recursos e a um desleixo lamentável das empresas farmacêuticas.
Desde então, os números têm sido ainda mais assustadores.
Hoje, trinta milhões de pessoas residentes na África subsaariana - cerca de três quartos da população mundial - têm Aids ou o vírus da imunodeficiência humana (HIV), causadora da doença, segundo a OnuAids.
Um em cada 11 adultos africanos tem HIV, proporção que sobe para um em cada cinco em sete países do sul da África e à desesperadora cifra próxima dos 40% da população em Botsuana. Só no ano passado, 2,2 milhões de africanos morreram vítimas da doença.
Apenas algumas dezenas de milhares de pessoas têm acesso às drogas antiretrovirais que, para muitos do rico Ocidente, transformou a Aids de sentença de morte a uma doença administrável.
A esperança, no entanto, chegou afinal.
Finalmente o dinheiro tem convergido em quantias significativas, embora continue distante do número mencionado pela ONU - de 10,5 bilhões de dólares por ano a partir de 2005 - para enfrentar a pandemia em escala global.
O Fundo Global de Luta contra a Aids, a Tuberculose e a Malária, uma nova iniciativa para juntar doadores, captadores, Ongs e a iniciativa privada, acaba de começar a operar.
A entidade já conseguiu recolher um bilhão de dólares para a luta contra a Aids, quantia suficiente para aumentar seis vezes o número de pessoas com acesso às drogas antiretrovirais na África e dar suporte a meio milhão dos 11 milhões de órfãos da Aids.
Outra grande arma na luta contra a doença é a iniciativa do presidente americano, George W. Bush, de liberar 15 bilhões de dólares em cinco anos para ajudar países africanos e do Caribe.
Na frente farmacêutica, os países africanos estão finalmente tendo acesso a antiretrovirais baratos.
As grandes empresas do setor diminuíram os preços de muitas destas preciosas drogas. No mês passado, membros da Organização Mundial do Comércio (OMC) concordaram em permitir que países pobres importassem genéricos mais baratos de remédios de marca, sob um "sistema compulsório de licenciamento" caso sejam incapazes de fabricá-los sozinhos.
A próxima tarefa é o trabalho de campo.
Chamada de "construção de aptidão", trata-se de montar redes de abastecimento, bases de armazenamento, recrutamento e treinamento de pessoal, segundo Salim Abdool Karim, professor na Universidade de Natal, na África do Sul, e co-organizador da Conferência sobre Aids 2000, em Durban.
"Chegamos ao estágio onde sentimos que podemos realmente fazer isto", disse o professor Karim durante entrevista.
Entre os obstáculos está o de garantir o fluxo de recursos limpo e eficiente para onde é necessário e de desenvolver redes médicas que garantam a correta administração do tratamento, diminuindo o risco de resistência, afirmou Lucile Astel, encarregada dos programas da Aids da Cruz Vermelha Francesa.
Há grandes variações quanto à forma como os países africanos enfrentam a Aids sozinhos.
As estrelas do continente são Senegal e Uganda, onde a ação precoce no combate à discriminação e o encorajamento ao sexo seguro ajudou a manter as taxas de infecção relativamente baixas ou a estabilizá-las.
O consenso entre os participantes de campanhas é o desempenho funesto da África do Sul, cuja classe política levou anos negando e até mesmo duvidando das evidências científicas de que a Aids é causada por um vírus.
Este terrível erro deixou o país com a maior taxa de Aids do mundo: uma média de cerca de mil mortes por dia em 2001.
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