DURBAN, África do Sul, 6 ago (AFP) - A polêmica sobre o acesso aos medicamentos retrovirais na África do Sul aumentou nesta quarta-feira na conferência sobre Aids de Durban. Ativistas, imprensa e a igreja criticaram o que chamaram de 'a loucura do Governo' no combate à doença, que pode comprometer as chances do partido no poder nas próximas eleições.
A África do Sul tem sido um dos países do mundo com maior incidência de casos de Aids desde que a doença surgiu. O Governo é alvo freqüente das denúncias dos ativistas devido à sua relutância em estabelecer um plano nacional de prevenção e tratamento.
"A Aids se converteu em problema político, pois todos os infectados pelo vírus HIV precisam ter acesso às terapias contra a doença", ressaltou Zachi Achmat, presidente do influente grupo 'Ação por Tratamento' (TAC, na sigla em inglês) para a imprensa.
"Eu mesmo sou membro do ANC (Congresso Nacional Africano) e posso dizer que o Governo terá um grande prejuízo se não colocar em prática um plano nacional de tratamento até as próximas eleições de 2004, frisou.
Há 16 meses, a Justiça derrubou a negativa governamental em utilizar a nevirapina para reduzir a transmissão do vírus da mãe para os filhos. Contudo, o Governo ameaça, de novo, proibir o uso da droga caso o fabricante não dê rapidamente mais provas da eficácia do retroviral, já aceito pela Organização das Nações Unidas (ONU).
Na África do Sul não há qualquer plano nacional para tratamento da doença, os retrovirais estão fora do alcance da maioria da população e só algumas grandes companhias privadas dão gratuitamente esse tipo de medicamento aos seus empregados infectados.
Um responsável do Ministério da Saúde confirmou, nesta quarta-feira, para uma rádio sul-africana que estudava um plano de ação nacional, mas assegurou que o conselho de ministros não poderia aprová-lo até que 'fosse estudado todos os aspectos do tratamento, sua real eficácia e efeitos colaterais'.
Quase mil pessoas morrem por ano de Aids na África do Sul, segundo estatísticas da ONU em 2001.
"Espero que o ANC tenha a coragem para dizer ao presidente Thabo Mbeki o que pensa realmente", frisou Zachie Achmat. O político ainda ironizou o Governo, dizendo que ele preferia os remédios tradicionais - alho, cebola e azeite de oliva - aos retrovirais na luta contra a doença.
"A razão de a África do Sul não avançar (...) é que o presidente Mbkei e a ministra da Saúde Tshabalala-Msimangen entendem pouco do assunto", criticou, aludindo ao fato de o mandatário ter dúvidas sobre a relação do HIV e a Aids.
"Um vírus não pode desencadear uma síndrome", afirmou Mbeki várias vezes desde que a Aids apareceu em seu país.
O jornal em africâner Die Burger publicou um editorial em que apontava a 'demência' do Governo no combate à Aids.
Na terça-feira, o arcebispo da Cidade do Cabo, Njongonkulu Ndungane, criticou o Governo, classificando a política em relação à Aids de tão vergonhosa quanto o antigo apartheid.
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