JOHANNESBURGO, 29 ago (AFP) - A África do Sul, palco da Cúpula de Desenvolvimento Sustentável da ONU ou Rio+10, é o país mais afetado pela Aids, mas os problemas sociais e econômicos que provocam a epidemia e os meios para preveni-la e tratá-la estão surpreendentemente ausentes das negociações e discursos oficiais.
"Não haverá desenvolvimento sustentável enquanto a Aids continuar fora de controle, enquanto boa parte das pessoas que têm que movimentar este planeta de agora em diante estiver doente ou morta", declarou nesta quinta-feira em Johannesburgo o diretor do programa das Nações Unidas contra a Aids (ONUAids), Peter Piot.
Em duas décadas, a Aids matou mais de 20 milhões de pessoas em todo mundo e até 2020 pode matar outros 68 milhões se não forem colocadas em andamento políticas eficazes e os governantes não "cumprirem suas promessas".
Segundo Piot, a Aids continua sendo considerada assunto exclusivamente do Ministério da Saúde e não está nos comunicados finais das grandes conferências. Por isso, Piot pediu aos líderes do mundo reunidos em Johannesburgo que reconheçam o assunto como importante para o desenvolvimento duradouro e não como um pequeno capítulo separado na saúde.
O coordenador do ONUAids lembra que na Conferência de Bali (Indonésia) de maio, dedicada a preparar a Cúpula de Johannesburgo, a Aids, nem sequer fazia parte da declaração. "Simplesmente se esqueceram", lamentou.
Em quatro dias de negociações em Johannesburgo não houve nenhuma menção dos delegados a esta questão. A própria imprensa sul-africana criticou que no discurso inaugural, o presidente Thabo Mbeki não tenha feito nenhuma referência à epidemia, que afeta cinco milhões de pessoas em seu país.
No local onde se reúnem as Organizações Não-Governamentais (ONGs) nos arredores de Johannesburgo há entretanto muita informação sobre a prevenção da Aids, são distribuídos preservativos e adesivos a favor da prevenção.
Segundo Piot, são necessários 10 bilhões de dólares por ano para realizar políticas eficazes de prevenção e tratamento. "Por enquanto contamos com cerca de três mil", explicou Piot, pedindo uma maior cooperação entre o setor público e privado.
"Os países desenvolvidos não estão dando exemplo porque não dedicam praticamente recursos. Entretanto, há países menos ricos como o Brasil, que no ano passado destinou mais de 600 milhões de dólares para lutar contra a doença", admitiu.
Segundo Piot, a Aids aumenta a pobreza, reduz o acesso à educação (1 milhão de crianças perderam seus mestres no ano passado na África), diminui a coesão social e o crescimento econômico.
Num país onde 20% da população é portadora do HIV, o PIB vai cair em 2,6%. Na África subsahariana, o crescimento econômico já caiu entre 2 e 4% devido à epidemia e no Caribe, o PIB será 4,2% menor em 2005, devido à doença.
"As expectativas demográficas ou econômicas que temos em alguns países da África para os próximos anos se parecem com as dos países que passaram por uma grande guerra", lamentou.
Segundo Piot, a prevenção e educação se somam à eficácia e democratização dos tratamentos. Dos seis milhões de doentes que precisam de tratamento em países em desenvolvimento, somente 230 mil o recebem. Na África, onde a Aids matou 2,2 milhões de pessoas no ano passado, somente 30 mil doentes tiveram acesso aos antiretrovirais.
"A América Latina e o Caribe são a prova de que países em desenvolvimento podem fornecer tratamento pelo setor público. No Brasil, mais de 100 mil pessoas recebem gratuitamente um coquetel antiretroviral. Em 2000, o número de mortos da Aids neste país foi três vezes menor do que em 1996.
Cerca de 170 mil pessoas de onze países da América Latina e Caribe são beneficiadas com este tratamento. O número de doentes nas duas regiões é de quase dois bilhões de pessoas, mais de 1% da população.
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