JOHANNESBURGO, 10 set (AFP) - O presidente sul-africano, Thabo Mbeki, relançou a polêmica sobre a Aids na África do Sul, afirmando, em carta publicada nesta segunda-feira pela imprensa, que a pandemia está longe de ser uma das principais causas de morte no país africano.
Nesse documento datado de 6 de agosto, dirigido ao ministro sul-africano de Saúde, Manto Tshabalala Msimang, e publicado pelo jornal Business Day, Thabo Mbeki se apóia em estatísticas da Organização Mundial de Saúde (OMS), datadas de 1995 para uma reavaliação dos gastos do Estado no setor.
Segundo números oficiais publicados no final de 2000, a África do Sul é o país com o mais alto número de soropositivos no mundo, com 4,7 milhões de pessoas infectadas, isto é, uma pessoa em cada nove.
Mas, segundo as cifras da OMS de 1995, "as últimas disponíveis" segundo o presidente sul-africano, a Aids só é a causa de 2,2% das mortes, estando em décima segunda posição, longe das "causas externas" (homicídios, acidentes, suicídios) e as enfermidades cardiovasculares.
"É inútil dizer que essas cifras vão provocar pruridos de descontentamento e uma campanha combinada de propaganda entre aqueles que se convenceram a si mesmos de que o HIV/AIDS é a maior causa de morte em nosso país", escreve o presidente.
"Seja qual for a intensidade da propaganda hostil que poderia ser provocada pelas estatísticas da OMS, não podemos permitir que a política e os programas de ação de nosso governo estejam baseados em falsas impressões, tão difundidas e bem estabelecidas que parecem certas", acrescenta.
O porta-voz presidencial, Bheki Khumalo, confirmou à Business Day a autenticidade da carta.
Para a principal ONG sul-africana de defesa dos enfermos de Aids, a Treatment Action Campaign (TAC), a posição adotada pelo presidente Mbeki é "uma tragédia".
O presidente da TAC, Zackie Achmat, disse à AFP: "Se for levado em conta o número de mortos por meningite, pneumonia, tuberculose, não há nenhuma dúvida de que a maioria das mortes estão vinculadas ao HIV, porque a Aids provoca a destruição do sistema imunológico e o surgimento dessas enfermidades".
Tony Kasper, da entidade Médicos Sem Fronteiras (MSF), informou à AFP que proximamente o Conselho Médico de Investigações sul-africano (MRC) publicará estatísticas que demostrarão que a Aids "não apenas é a causa principal de morte na África do Sul, mas que poderia superar todas as outras causas juntas".
O principal partido de oposição, a Aliança Democrática (DA, direita), questionou os números dados pelo presidente, e se referiu às cifras divulgadas pelas empresas de seguro sul-africanas que datam de 1999. Segundo essas, 23.000 pessoas vieram a falecer esse ano vítimas de morte violenta contra 250.000 por enfermidades vinculadas à Aids.
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