BRASILIA, 10 Nov (AFP) - Aos seis anos, sobre Jeferson pende uma sentença de morte: o vírus da Aids se apodera de suas células, assim como nas dezenas de crianças que correm e brigam por uma boneca na sala de espera do consultório de pediatria do Hospital Dia, de Brasília, especializado na doença.
O maior entre os que são atendidos nesta chuvosa tarde, Jeferson também é o único com sintomas visíveis da praga que nasceu com a década de oitenta: uma magreza que beira o raquitismo, a pele salpicada de pústulas e uma tosse que denuncia sua pneumonia crônica.
"Há três meses que ele deixou de ir ao colégio porque qualquer coisa lhe ataca", disse sua mãe, Romilda, de 29 anos, que atribui a enfermidade do quarto de seus cinco filhos a uma transfusão de sangue no hospital quando ele tinha dois anos.
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Aids (ONUSIDA) na América Latina e Caribe até o ano passado foram registrados cerca de 15.500 casos de Aids infantil (perinatal e pediátrica) foram registrados na região, aproximadamente mais da metade deles no Brasil.
Além disso, segundo experts reunidos esta semana no Rio de Janeiro, cerca 40.000 crianças da região estão infectadas com o vírus da imunodeficiência adquirida (HIV, causador da Aids) e 200.000 perderam seus pais por causa do mal.
O tema vai figurar obrigatoriamente nas discussões da X Reunião Iberoamericana de 17 a 18 de novembro no Panamá, destinada aos problemas da infância e da adolescência.
O Hospital Dia, da capital brasileira, especializado no tratamento de pessoas que contraíram o HIV ou que desenvolveram a Aids, controla a evolução da saúde de 80 menores de 13 anos -alguns órfãos por causa da doença- e mais de 1.400 adultos.
A cada dois meses eles se submetem a um controle e recebem o coquetel de medicamentos, os retrovirais, entregues gratuitamente pelo Governo brasileiro, e que desde 1996 mantêm vivas as esperanças de que a Aids possa ser curada.
A maioria descobre que é soropositiva quando realiza os primeiros exames durante a gravidez ou quando o estado de saúde se agrava devido às doenças parasitárias, como a pneumonia ou a tuberculose.
E, que além dos dependentes de drogas injetáveis, a população heterossexual se tornou a mais exposta ao contágio.
"As pessoas têm medo de fazer os exames", declara o coordenador do programa Dalcy Albuquerque Filho, que culpa também os médicos que generalizam tudo, pois diante da aparição de "sintomas simples" não prescrevem ao paciente um exame de sangue. A administração dos medicamentos retrovirais seria muito mais eficaz antes do vírus dar seu golpe fatal.
A Coordenação Nacional de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST) registrou até este ano 190.949 casos de Aids no Brasil desde 1980: 6.750 crianças (pouco menos que os 8.183 divulgados pela ONUSIDA em 1999), 139.502 homens e 44.697 mulheres.
Segundo a ONUSIDA, razões biológicas e fatores sociais fazem com que as mulheres sejam mais vulneráveis à Aids do que os homens. As meninas têm até cinco vezes mais chances de contrair o vírus do que os meninos.
A mãe de David, que não quis revelar seu nome com medo de que alguém possa identificá-la, se contaminou em uma de suas numerosas relações sexuais. Como a maioria das quase 13.000 gestantes, cerca de 0,4% do total no país.
Aos 23 anos, ao ficar grávida do filho -que corria incansável e travesso pela sala do consultório empenhado em conseguir a boneca de sua companheira momentânea de jogo-, o seu mundo veio abaixo quando um exame de sangue revelou que era soropositiva, assim como David, de três anos.
A vontade de se prender à vida para cuidar de seu filho, os medicamentos retrovirais, uma alimentação e vida saudável estão conseguindo conter o avanço da doença, que no entanto continua sendo um estigma para seus portadores.
"Existem muitos prejuízos", assegura com medo de que alguém fora de sua família possa saber desta 'mancha', antes de acrescentar que tem um noivo, norte-americano, comq o qual gostaria de se casar e ter mis filhos.
Segundo a pediatra Theresa Christina Corrêa, as probabilidades de transmissão perinatal quando existe uma estreita vigilância médica durante a gravidez e se injeta zidovudina durante o parto caem para 2 ou 3%, enquanto que sem controle algum ficam em torno de 30%.
Apesar disso, somente 19,5% das gestantes infectadas no Brasil se submetem ao tratamento. Por isso, as autoridades sanitárias estão implantando em todo o país o programa de Vigilância de Gestantes com HIV e Menores Expostos, que permite rastrear a infecção no período pré-natal, determinar a incidência infantil e controlar o quadro clínico dos que nascem sem vírus até que completem dois anos.
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