RIO DE JANEIRO, 8 nov (AFP) - O número de mulheres infectadas pelo vírus da Aids aumentou notavelmente nos últimos anos na América Latina e no Caribe, mas as políticas públicas de prevenção continuam se centrando nos homens, heterossexuais e homossexuais.
Porta-vozes do Movimento Latino-Americano de Mulheres com Aids, presentes ao Fórum Internacional sobre a doença na América Latina e no Caribe que se realiza durante a semana no Rio de Janeiro, explicaram que a síndrome está se feminizando.
Segundo o movimento, 400.000 mulheres vivem com a enfermidade nesta região, que possui mais de 1,5 milhão de doentes e na qual "não se desenvolvem estratégias de prevenção e muito menos de apoio às pessoas contaminadas".
Representantes do Programa da ONU para o Desenvolvimento (PNUD) explicaram que as relações heterossexuais se converteram no canal de transmissão da Aids mais importante. "A mulher é vítima passiva da infecção no próprio lar e transmissora no mercado sexual", estimaram.
"Se contrair Aids num país desenvolvido é difícil, ser soropositiva na América Latina é penoso", estimaram dirigentes do Movimento de Mulheres Latino-Americanas com Aids.
Segundo o Banco Inter-Americano de Desenvolvimento (BID), nove em cada dez mulheres infectadas no mundo vivem num país em vias de desenvolvimento.
Nestas condições, as enfermas são muitas vezes obrigadas a esterilizar-se ou a abortar, são utilizadas como objetos de pesquisa da transmissão vertical (mãe-filho), não têm acesso à informação, aos direitos civis, ao direito de assistência e ao planejamento familiar, segundo a colombiana Sandra Arturo, portadora do vírus.
A isto se soma o fato de que a pobreza da região, unida às vezes à ignorância, reduz o uso do preservativo entre casais pouco estáveis e elimina as visitas periódicas ao ginecologista.
Em Honduras, 46% (equivalente a 29.000 pessoas) das pessoas contaminadas com Aids são mulheres; na República Dominicana, 45,3% (59.000); na Guatemala, 38,5% (28.000); no Brasil, 27% (130.000); no Uruguai e Peru, 25% (1.500 e 12.000 pessoas respectivamente) e na Argentina, 20,7% (27.000), segundo dados das Nações Unidas.
De acordo com o Movimento de Mulheres com Aids, uma grande parte das infectadas têm, em média, 32 anos, são donas de casa monógamas, com estudos básicos, que nunca foram comprar camisinha na farmácia. No Brasil, por exemplo, 60% das mulheres com Aids foram contaminadas por seus maridos, segundo o Ministério da Saúde.
"Normalmente a doença vem acompanhada da rejeição e da crise familiar já que o diagnóstico da Aids é acompanhado da notícia de infidelidade ou bissexualidade do marido e ao temor de que os filhos também possam estar contaminados", asseguram representantes da Liga Colombiana de luta contra a Aids.
A doença é severa e o avanço entre as mulheres exige uma campanha de governos e instituições privadas com dois objetivos: desenvolver a pesquisa médica e mudar os padrões de comportamento da população para uma prevenção efetiva.
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