DURBAN, África do Sul, 11 jul (AFP) - Grandes nomes da ciência compartilharam, na Conferência Mundial Sobre a Aids, em Durban, as frustrações de sua luta contra o HIV, ressaltando a incrível capacidade do vírus da Aids de se transformar e escapar das armas mais sofisticadas.
"A Aids é uma doença complexa", declarou, durante um debate em sessão plenária, o professor Luc Montagnier, o primeiro a isolar o Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV), em 1983. "Muitas perguntas continuam sem resposta", acrescentou.
A situação atual das pesquisas, apresentada aos 11 mil delegados presentes à conferência, ilustrou as dificuldades que surgiram recentemente em relação ao coquetel de medicamentos, que aparecia há alguns anos como uma arma potencialmente fatal para a Aids.
David Ho, do Aaron Diamond Research Center de Nova York, explicou como as terapias antivirais altamente ativas (HAART) suprimem o vírus provisoriamente, sem conseguir erradicá-lo.
"Células-memória", que contêm a fórmula genética do HIV, se instalam em "reservas" dormentes do organismo, como as glândulas linfáticas. Nem bem termina o tratamento, as células em questão ressurgem e se reproduzem, inundando o sistema imunológico e expondo-no às doenças.
Além disso, acrescentou Ho, dados recentes sugerem que as terapias HAART são incapazes de suprimir uma "minúscula fração" de células sangüíneas infectadas pelo HIV, que se reproduzem por si mesmas e contribuem para preencher estas "reservas" dormentes.
"O vírus tem uma capacidade misteriosa de restabelecer uma reserva resistente à erradicação", comentou o professor Anthony Fauci, dos Institutos Nacionais de Saúde Americanos.
As HAART consistem em um coquetel de três produtos administrados diariamente, mas que têm graves efeitos colaterais sobre o fígado, o metabolismo e a distribuição de gordura no organismo.
Com um custo de 2,9 mil dólares por pessoa ao ano, o tratamento está fora do alcance dos doentes em países pobres, como os africanos, que concentram mais de 70% dos 34,3 milhões de soropositivos e doentes de Aids no mundo.
Fauci concluiu sua participação assinalando que o tratamento com HAART não é uma opção viável para a vida inteira. Por isso, os cientistas enfrentam um dilema: nesta etapa de seu crescimento e levando em conta os obstáculos encontrados, deve-se concentrar os esforços no controle da doença ou na erradicação do vírus?
Uma possibilidade é interromper o tratamento com HAART depois de um tempo, deixar o vírus reaparecer e, em seguida, retomar o tratamento. Desta forma, o doente teria uma pausa nos efeitos colaterais. Testes em pequena escala, que aplicaram períodos variados de tratamento e interrupção, apresentaram bons resultados.
Para confirmar estas hipóteses, são necessários testes em maior escala e com maior precisão, que deveriam se estender por um período de um ano a 18 meses.
Durante os debates desta terça-feira, os cientistas não mostraram a menor intenção de abandonar as discussões sobre a origem da Aids e a polêmica envolvendo o presidente sul-africano, Thabo Mbeki, que demonstrou apoio a teses minoritárias que negam que o HIV seja a causa da Aids.
"Não responder a esta praga moderna que é o HIV seria um ato de irresponsabilidade criminoso, que a história julgaria severamente", disse David Ho, instando o presidente Mbeki a não deixar como "herança" política um enfraquecimento da luta científica contra o vírus.
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