JOHANNESBURGO, 7 jul (AFP) - O Sul da África, região que sediará a conferência sobre Aids a partir deste domingo, em Johannesburgo, é a região do mundo mais atingida pela doença, com taxas de infecção de até um em cada três adultos, em sociedades onde ainda prevalece a ignorância sobre o vírus e um comportamento de exclusão do doente.
As cifras são impressionantes e o desastre é inacreditável. Em sete países da região (Botsuana, Suazilândia, Zimbábue, Lesoto, Zâmbia, África do Sul e Namíbia), pelo menos um adulto em cada cinco é portador do vírus HIV.
Os 14 países da região totalizavam, ano passado, mais de 10 milhões de soropositivos ou doentes (cerca de um terço do total mundial) e mais de um milhão de mortes causadas pela Aids, segundo as Nações Unidas.
Apesar da grandeza das cifras, as estatísticas escondem as conseqüências reais da perda de milhares de homens e mulheres economicamente ativos, sobretudo em países pequenos, como Botsuana (1,6 milhão de habitantes), Namíbia (1,6 milhão) e Suazilândia (um milhão).
Os dados escondem também a dura realidade da vida das pessoas afetadas por esta tragédia. Nos orfanatos de Johannesburgo, que dispõem, no melhor dos casos, apenas de antibióticos, crianças de dois e três anos estão morrendo. Nas plantações de cana-de-açúcar do Norte de KuaZulú-Natal, doentes excluídos de suas comunidades se escondem, para morrer.
Apesar da gravidade da situação, a conscientização demorou a chegar na região, cujos Governos estudam com atraso a enorme tarefa que têm que assumir para lutar contra o vírus HIV.
"Há três anos, ninguém conhecia alguém que tivesse morrido de Aids. Agora, a doença e a morte fazem parte do cotidiano", explicava recentemente Botsalo Ntuane, secretário-executivo do Partido Democrático de Botsuana (BDP, no poder). "Há jovens cujo único programa aos sábados é assistir a funerais. Alguns vão, no mesmo dia, ao enterro de dois amigos que morreram de Aids".
Ainda assim, continuam as crenças e comportamentos perigosos. Em regiões isoladas da África do Sul, por exemplo, existe a crença de que uma relação sexual com uma virgem pode curar a Aids.
Em Lesoto, muitas famílias divulgam que seus membros aidéticos morreram de "pneumonia", para evitar a discriminação, como denunciou recentemente o primeiro-ministro, Pakalitha Mosisili.
Por outro lado, a vontade da África do Sul de dar uma "resposta africana" às especificidades locais da Aids (grande transmissão entre heterossexuais, cepas locais do vírus, mortalidade) manchou a imagem dos Governos do Sul da África decididos a atuar rapidamente ou, quem sabe, com a mesma determinação que mostraram diante dos grandes grupos farmacêuticos para fazer com que o preço dos tratamentos contra a doença baixassem.
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