BUENOS AIRES, 2 set (AFP) - O argentino Pedro Cahn, presidente da Sociedade Internacional de Aids, afirmou que a doença "está vencendo a guerra", levando em consideração as milhares de pessoas que se contaminam por dia e os milhões que morrerão nos próximos anos e garantiu, em declarações nesta quinta-feira à AFP, que o preservativo pode fazer a diferença.
Cahn participa, junto a 1.500 especialistas, do VII Simpósio Científico Internacional de Aids 2004, iniciado na quarta-feira na capital argentina e no qual, durante quatro dias, serão analisados os últimos avanços sobre pesquisas sobre HIV/Aids, tanto ao nível social quanto biomédico.
"É difícil pensar que estamos vencendo a batalha, quando 15.000 pessoas se infectam todos os dias", disse Cahn.
Vinte e três anos depois de sua aparição, a Aids registra números macabros: 20 milhões de mortos, milhões de órfãos e 38 milhões de soropositivos.
Cahn explicou que no Simpósio serão discutidas as últimas novidades apresentadas na Conferência Mundial de Aids, em julho passado, na Tailândia e que, segundo o especialista "foram boas e más".
"Entre as boas, é importante que contemos com um número maior de drogas para combater a doença e com tratamentos mais simples, menos tóxicos e mais fáceis para o paciente administrar", explicou.
"A má é a enorme quantidade de pessoas que não têm acesso ao tratamento, o que corresponde a 95% dos infectados em todo o mundo", continuou.
Neste sentido, ele ressaltou que a América Latina está "um pouco melhor em comparação a outras regiões do mundo, porque 55% dos infectados têm acesso aos medicamentos, enquanto na África só 2% têm acesso e na Ásia, 3%".
"Na América Latina, a situação neste aspecto melhora, graças a programas realizados no Brasil e na Argentina, parcialmente pelos de Cuba, Costa Rica, Venezuela e Chile e pela previdência social na Colômbia e no México", disse Cahn, eleito em julho como titular da SIS.
Os especialistas consideram a África e a Ásia verdadeiras "bombas-relógio" e advertem que, segundo estimativas, um terço dos africanos está infectada, o que significa a sentença de morte para milhões de seres humanos que não vão receber tratamento a tempo.
Cahn insistiu na necessidade de que cada país implemente uma campanha contra a Aids e a favor do uso de preservativos, apesar da condenação da Igreja católica, que tanta influência tem na região.
"A experiência acumulada até agora mostra que a camisinha é o que há de mais eficiente para os que não praticam a abstinência", afirmou.
Neste sentido, continuou, "não há espaço para polêmicas com a Igreja".
A recomendação da prática da abstinência e de fidelidade, feita pela cúpula da Igreja Católica está fadada ao fracasso, por ir de encontro a uma forte resistência da sociedade e de alguns especialistas.
O Ministério de Saúde e Meio Ambiente da Argentina lançou recentemente um plano nacional de prevenção de HIV-Aids, que prevê a distribuição gratuita de 20 milhões de preservativos, decisão questionada por algumas autoridades eclesiásticas.
As camisinhas começarão a ser distribuídas a partir de outubro por membros de 120 organizações não-governamentais, mas a campanha também inclui cartazes em vias e banheiros públicas e anúncios por rádio e TV.
Além das críticas contra os preservativos, algumas vozes da Igreja também questionaram que estes cartazes façam alusão a "todas as formas de sexualidade".
"O grande mérito dos cartazes e das mensagens elaboradas para conscientizar as pessoas é que eles respeitam e celebram a diversidade", disse César Cigliutti, presidente da Comunidade Homossexual Argentina (CHA).
Cahn insistiu em que a luta contra a pandemia de Aids deve ser travada em várias frentes, não só no campo científico, e destacou a estreita relação existente entre a doença e a pobreza.
"Não vamos ganhar se as condições sócio-econômicas não mudarem, porque existe um círculo vicioso entre Aids e pobreza. Menos educação e menos trabalho geram pobreza e isto faz girar a roda indefinidamente", afirmou.
"Este tema não será resolvido só pelos médicos e cientistas. Precisamos que toda a sociedade tome consciência. Os pais, os professores. Toda a estrutura educativa deve assumir um forte compromisso", concluiu.
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