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Afeganistão prepara primeira campanha de distribuição de preservativos

Agence France-Presse - Maio 3, 2004
Hervé Bar

CABUL, 3 mai (AFP) - No país dos talibãs, onde o Islã impera, trata-se de uma pequena revolução: a organização não-governamental PSI (População Serviços Internacional), com sede em Washington, se prepara para lançar, a partir da próxima semana, uma ampla campanha de distribuição de preservativos em todo o Afeganistão.

Um milhão e seiscentos mil preservativos "Number One" serão vendidos ao preço especial de 1 afgani (0,02 dólar) em farmácias e drogarias de cinco grandes cidades do país.

A operação começou de forma discreta na capital afegã em janeiro e já é um sucesso.

"Foram vendidos 400.000 preservativos em quatro meses", comemora Andrew Miller, responsável da PSI.

"Este programa responde a uma necessidade. Constatamos em nossos estudos que havia uma demanda de preservativos no Afeganistão", explica Miller.

"No entanto, visto o contexto cultural, tivemos que adotar uma campanha comedida para não ferir a sensibilidade dos afegãos", continuou.

Livre dos talibãs, a sociedade afegã continua profundamente conservadora e sexualmente reprimida. Sexo continua sendo um tema tabu.

O preservativo surgiu no Afeganistão nos anos 80, durante a ocupação soviética. Hoje, está disponível na maioria das farmácias, mas continua sendo pouco usado e sempre escondido, como tudo o que se refere à sexualidade.

Nesta primeira venda em grande escala, a PSI elegeu um modelo básico: sem sabor, perfume, textura especial ou a inscrição "extrafino".

Vendidos em pacotes com três unidades, os novos preservativos se apresentam em embalagem azul com sigla em amarelo, sem qualquer alusão ao sexo. Apenas o algarismo "1" do nome 'Number One' evoca de forma remota um símbolo fálico, mas a embalagem de modo geral pode ser confundida com a de doces, pilhas elétricas e lubrificantes para automóveis.

"Foi realmente uma dor de cabeça traduzir as instruções (contidas dentro do pacote) e elaborar uma embalagem que não causasse comoção", disse Emmanuel de Dinechin, da Altai Consulting, escritório de consultores que participou da apresentação final do produto.

"A ignorância dos afegãos sobre a sexualidade é abismal, o trabalho de educação é imenso", disse Miller.

É preciso também considerar as barreiras culturais. Seria impensável, por exemplo, usar um diagrama para ilustrar como o preservativo deve ser colocado. Ou traduzir diretamente para os idiomas locais dari e pashtum as instruções de uso como apresentadas nos países ocidentais.

"Para a campanha publicitária, precisamos usar slogans muito neutros", explicou Miller, pois algumas palavras, como sexo, simplesmente são inaceitáveis.

O PSI desistiu do slogan inicial - "Tenha uma família menor" - por ser inadequada num país onde espera-se que a mulher tenha cinco ou seis filhos.

Mais vago, será usado o slogan "Tenha uma vida mais confortável, torne sua família número um", em alusão à marca, 'Number One'.

"Será um marketing discreto, mas ao mesmo tempo, muito disseminado, os afegãos irão se familiarizar com a marca 'Number One'", explicou Miller.

Financiado pela Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional (USAid), o programa de cinco milhões de dólares também planeja distribuir anticoncepcionais femininos, inclusive a pílula, além de kits para a purificação da água e produtos contra os mosquitos.

Todos os itens tiveram a distribuição aprovada pelo Ministério de Saúde afegão.

Com menos de 12 casos de HIV/Aids oficialmente registrados no Afeganistão, a promoção do uso dos preservativos não se inscreve na campanha por sexo seguro ou para diminuir o número de filhos.

A PSI diz que se trata de encorajar os casais a planejar o nascimento de seus filhos e, assim, lutar contra a alarmante taxa de mortalidade maternal, uma das mais altas do mundo.

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